VIAGEM PROFUNDA! (APURAR OS SENTIDOS).

Sonolenta. Sensação corporal de leveza. Olhos pesados, lacrimejando de tanto bocejar. Credo, parece quebranto! Não paro de ficar bocejando, até dói o maxilar. Sentada no tapete da sala de estar dou uma espiada rápida no sofá aconchegante, encostado no canto da parede. Da varanda emana um cheiro delicioso de jasmim. O perfume se espalha por toda a sala.  A tentação de deitar naquele sofá é imensa. Meu corpo pede um sono gostoso! No entanto vim aqui na sala para meditar. Não quero dormir agora! (Não devia ter tomado as duas taças de vinho no almoço). Tenho pouca resistência ao álcool! Com preguiça, me levanto, vou até a cozinha tomar um copo de água. Aproveito e provo um bocadinho da geleia de morangos frescos que fiz  hoje pela manhã, antes do almoço. Provo. Hum, delícia! Pego uma colherada e lambuzo uma torradinha integral. Nossa! Sinto que meu corpo acordou com esse prazer! Os morangos docinhos reanimaram o desejo de voltar à experiência a que eu  tinha me proposto: meditação profunda! Há tempos estou querendo fazer essa viagem. Experimentar sensações novas, saudáveis e intensas, através dos sentidos. Fiz iniciação na yoga e, num determinado momento, travei. Tive que interromper.  Acho que me bloqueei. Isso ficou mal resolvido em mim. Neste domingo tranquilo, sozinha aqui em casa, me estimulei viver a experiência novamente. Nestes últimos dias, li um livro incrível sobre “efeitos da respiração profunda”.  Essa conexão com o interno é muito importante para o auto desenvolvimento e auto percepção. Tema atraente para mim! Ainda na cozinha olho para a mesa e olho as compotas. Tentação, essa geleia! Pego uma colher e saboreio mais uma porção dessa delícia. Volto à sala engolindo prazer. Novamente me sento no tapete, em posição de lótus e me preparo para meditar! (O livro que li explicava que através da respiração apuramos os sentidos e nos apropriamos mais de nós mesmos). A sexualidade pode atingir um estado de entrega plena!  Sensibilidade mais refinada. Tudo melhora! O vento na pele, o ar inalado produzem sensações aguçadas de um extremo prazer de estar vivo, mobilizando pontos sutis do sistema energético. Busco sair desses ensinamentos saudáveis que invadem a minha mente e tento voltar para o vazio interno. Inspiro a calma!  Respiro lenta e profundamente. Faço isso algumas vezes. Volto a respirar normal. Começo a contagem mental, de um a cinco. Quando algum pensamento interfere, retomo a contagem. Controlar os sentidos não é fácil! Gosto do morango que insiste ainda em minha boca, junto ao perfume das flores que vem da varanda, despertam sensações de um prazer singular. Intenso! Me ancoro nesse estado sensorial. Fecho os olhos. Aguço mais os sentidos. Ouço o vento cantando entre os galhos dos coqueiros do quintal. As folhas conversam entre elas. Som  misterioso. Fascinante! Coloco as mãos sobre o meu abdome, entrelaçando os dedos, suavemente. Sinto o calor da minha pele entre eles. Calor gostoso. Morno. Em  minha mente imagens abstratas, variadas, vindas do inconsciente. São figuras desconexas. Coloridas. Preto e branco. Misturadas. Me entrego aos sentidos! Quadro emocional motivador. De repente estou num lugar novo e estimulante. Foco meu olhar no meu âmago. Bem lá no fundo das entranhas. Ancoro nessa sensação por  instantes. Inspiro fundo! Expiro lentamente. Solto todo o ar num ritmo suave e prazeroso. Repito algumas vezes essa respiração. Pensamentos desconexos vêm a mente. Deixo que eles permaneçam o tempo necessário e que voem junto ao vento! Aceito sem censura expressões cerebrais emergentes. (Vou dando continuidade ao processo de limpeza mental, através desses exercícios). Olhos fechados, firmes, focados em meu interior. Depois de algum tempo surge uma sensação de vazio. Intenso. Tento permanecer nesse lugar, nem que seja por rápidos instantes. Algum medo? talvez! Pensamentos cruzados, insistem em interferir nesse processo de esvaziar a mente. “A cabeça da gente é danada, Traiçoeira”! Parece que conspira contra! Não desisto fácil. Sou persistente. Não quero me sabotar! Retomo o processo. Desta vez, conto de um a nove, rejeitando qualquer interferência da mente. Quando ela invade, recomeço a contagem. Depois de muitas tentativas, nem sei quantas, atinjo uma sensação de leveza e profundidade. Há uma luz aquecendo as minhas células. A energia circulante, traz imagens fortalecidas de mim mesma. “Sou gaivota no pico da montanha”. Estou nas nuvens. Transformador e transformante, esse instante. Minha alma está lépida. Lilás! Coração vermelho, pulsante! Pulsando na cadência das batidas. Tranquilo. Sereno. Dança harmoniosa. Integrada. Meu corpo reage num estado de intensa integração. Nirvana. “A CASA ESTÁ EM FESTA”!

O MUNDO COLORIDO DE RENAN! (DISLEXIA)

Renan, nove anos, é uma criança singular. Inteligência colorida e muito criativa. Desconhecida dos medíocres. Estão acostumados com o modelo tradicional que a sociedade aprova! Esse garoto desde pequenino já denotava um comportamento diferente do irmão mais velho. Sua mãe, mulher simples, afetuosa e preocupada, sempre esteve por perto. Coração gigante. Alma frágil. Cérebro ambivalente. Ora o protegia, ora o punia. Uma coisa é certa: ela o amava profundamente! Algumas vezes até se traia sendo rude e severa. Depois sentia muita culpa por atitudes agressivas e rejeitadoras que eventualmente tomava em relação a ele. “Renan era como um Anjo”. Doce e sensível! Vivia num mundo imaginário sustentando fantasias e sonhos. Natural que Joana, sua mãe, tivesse preocupação com o futuro do filho. Ela era sozinha. Separou-se do pai de Renan, ainda grávida. Um homem troglodita! Insensível e egoísta. Trabalhadora e determinada, Joana seguiu a vida. Conseguiu o cargo de gerência num grande supermercado, próximo à sua casa. Dona Lourdes, sua mãe, dava um bom suporte enquanto ela não voltava do trabalho. Preparava comidas caseiras saborosas, muitas verduras e grãos. Um tempero delicioso. Renan adorava a comida da avó, que o mimava demais. Era o seu xodó. Mulher da roça, que, em sua simplicidade, não entendia porque o  neto amado tinha tantas dificuldades na escola. Ela adorava o jeito amoroso dele. Para ela, Renan era o máximo principalmente quando mostrava pinturas  expressivas e coloridas! No entanto, acompanhava a rotina dele e sabia que algo estava errado em sua vida escolar. Não foram poucas as vezes que Joana foi chamada à escola em função das dificuldades de seu filho em ler e escrever. Em decorrência disso Renan sofria muitas gozações e humilhações. Quando chegava em casa amuado, Joana já sabia que algo ruim tinha acontecido na escola. Ela era uma mulher  esclarecida, porém não conseguia entender o que havia com seu filho. Porque tanta dificuldade  em aprender? Sempre o achou inteligente e criativo. Em sua cabeça, às vezes, surgiam perguntas sem respostas, mas logo pensava que era incompetência dos professores. Trocou Renan de escola algumas vezes, tentando resolver o problema que tanto a angustiava. A última transferência de Renan foi para uma escola com métodos e disciplina mais rígidos. Joana pensou que talvez fosse o que estava faltando pra Renan se enquadrar. Sentia um aperto no coração só em pensar que ele poderia sofrer. Nesses instantes buscava apoio em seu lado racional pra não fraquejar. Precisava se manter firme. “Não queria repetir o erro”. Em cada mudança de escola sempre houve uma expectativa imensa e muitas frustrações. Desta última vez não foi diferente. Logo no primeiro  mês, a coordenação convocou uma reunião com Joana e a comunicou que seu filho não tinha condições de frequentar uma escola normal. Indicou-lhe uma instituição para crianças especiais. Joana descabelou-se. Filho especial? Não!  “Eles não conheciam o seu Renan!”. Ele foi encaminhado para uma avaliação neuropsicológica para fechar um diagnóstico. Havia uma suspeita de dislexia. Quando Joana recebeu o diagnóstico positivo entendeu todo o sofrimento que seu filho sentia. A partir dai, desarmou-se. Buscou informações precisas sobre dislexia. Ampliou a consciência sobre os sintomas do quadro e formas de abordagens. Incrível, mas sentiu- se mais segura para buscar caminhos.  Entendeu que existem tipos e graus diferentes de dislexia e que tem origem genética. A de Renan era do tipo mista, num grau médio. Isto é, auditiva e visual dificultando a aprendizagem e a aquisição das habilidades na escrita, fala e orientação espacial, entre outros. Renan começou a frequentar uma psicóloga especializada e uma fonoaudióloga. Ao mesmo tempo foi matriculado numa instituição que tinha classes especializadas para crianças com dislexias. Com o passar do tempo a inteligência acima da média de Renan veio à tona, transbordando de alegria os corações que o amavam e principalmente a ele mesmo. Foi ficando seguro e integrado. Professores com a magia do conhecimento e da sensibilidade, fizeram desabrochar a criação e a vida que estavam reprimidas dentro de seu mundo. Seus olhos brilhantes expressam agora a alegria de viver. Sorriem como uma criança feliz. Hoje Renan já sabe que é capaz! VOVÓ LOURDES QUE O DIGA!

NÃO SEJA RIDÍCULO! ( IMATURIDADE).

Guilherme é figura que inspira os fracos. Sessenta e seis anos cronológicos e quinze mentais. Casado e pai de dois filhos adultos. Seu comportamento inadequado foi suportado pela esposa durante os trinta anos de convívio. No início do relacionamento Marina achava até graça quando o marido falava ou fazia coisas fora do contexto. Pensava que fazia parte da carência emocional  dele. Ele tinha tido uma infância difícil, pouco contato amoroso. Família numerosa e desestruturada. Ficava jogado nas ruas, cabulava aulas, sem direção e acompanhamento. Aprendeu a mentir pra se proteger de possíveis punições quando era indagado sobre alguma falha que cometera. Pais ausentes emocionalmente, porém, violentos. Sorte que na adolescência, um tio paterno se preocupou com o futuro  dele e resolveu investir em seus estudos. Guilherme foi obrigado a duras penas, entrar nos eixos e nos valores sociais. Teve que estudar muito. Foi muito cobrado pelo tio Jonas. Se deu bem profissionalmente. Formou-se em direito. Abriu um escritório na área trabalhista, ganhou um bom dinheiro. Só o seu caráter imaturo que não mudou, pelo contrário, ficou mais crápula ainda. Esse traço era mais evidente na intimidade. Sabia usar máscaras no social! Quando Marina o conheceu na faculdade, ficou encantada. Nem imaginava que aquele bonitão brincalhão tinha caráter fraco. Era um sedutor inveterado e disfarçado. Com o passar dos tempos ela conheceu o marido infiel que lhe causou muitas lágrimas. Mulher forte. Segurou a onda! Conseguiu conservar a família unida, engolindo raivas e dissabores ao ponto de desenvolver intensa gastrite. Apaixonada pelas suas crianças. Deu duro na formação do caráter deles. Não pensava em si. Doou-se inteira. Agora, depois de tanto tempo, filhos independentes e bem direcionados na vida, não quer mais auto sabotar-se. -“Guilherme potencializou seus defeitos. Transformou-se numa imagem piegas do sessentão com cabeça de adolescente. Sua linguagem, atitudes e interesses são fúteis e escrachados. Pornografia e cachaça são seus vícios. Aposentado, boa situação financeira, gasta tudo nos bares da vida. É um imbecil, sentindo-se um jovenzinho sedutor. Adora menininhas! Desprezível como ser humano”! – Essa foi a fala de Marina. “CIC”.  Ela o enxotou de sua vida. Marina veio buscar ajuda terapêutica. Juntar destroços internos e se perdoar. Está gostando do novo sabor de sua vida (jardins de girassóis). Descobriu-se corajosa, bonita e inteligente. Vai retomar os estudos. Desta vez quer fazer psicologia. Diz brincando: “Quero ajudar outras Marinas em tempo hábil”. Estamos trabalhando nessa questão. Será desejo genuíno ou transferência terapêutica? Sua viagem interna lhe dará a resposta. Está atenta. Vida nova. “MARINA NÃO PODE SE ENGANAR DESTA VEZ”!

 

 

QUADRO NA PAREDE! (DEVANEIO/DECISÃO).

Tarde fria e úmida. Gotas da chuva escorrendo pelos vidros das janelas. Parecem lágrimas de uma tarde triste! Luzes dos faróis  se refletem nessas lágrimas, despertando uma sensação muito estranha. Sinto que o coração ganhou um peso insustentável. Está disparado, buscando correr dessa angústia inesperada. Tento sair desse estado emocional, direcionando os pensamentos para o ambiente da sala, onde me encontro. Sentada no velho tapete bege; ansiosa, olho ao redor. Minhas pupilas buscam rapidamente algum ponto que me transporte a uma sensação mais leve. Muito ruim ficar assim! Volto os olhos a um quadro colorido, pendurado na parede, pertinho do piano. Ele sempre esteve ali. Só agora percebo os detalhes. Nunca o tinha visto assim! Fico fixada na expressão do palhaço, chorando de tanto rir.  Palhaço diferente! Tem um brilho estranho no olhar. Alegre e triste. Emoções misturadas que confundem a minha mente. Fico intrigada! O que será que ele esconde dentro de si? Que histórias? Expressão ambivalente que  mexe em sentimentos ambíguos, ancorados bem lá no fundo de meu peito. Chega um certo frio na barriga junto à saudade de morrer. Vida ingrata! Tudo que é bom escapa, vai embora. Tempos que não voltam. Lembranças intensas. Crianças brincando, correndo pela sala, atropelando os adultos, numa alegria genuína. Lembro que esse palhaço assustava a pequena Jana. Ela tinha medo. “Bicho papão”! Achava engraçado e cobria o quadro. Queria protege-la de fantasias ruins. Hoje eu a entendo melhor! Naquela época não cabiam falsidades. Tampouco inveja, competição ou qualquer sentimento tóxico. Tudo tão natural! Discussões eram como uma vitamina  que nutriam ainda mais os vínculos. Girassóis, roseiras e pardais! Sempre havia uma cor de fundo iluminando os contatos. Risos abertos. Palavras francas, algumas vezes duras, repassando a mensagem clara e bem dirigida. A confiança era tanta que nunca se duvidava do amor! A gente sabia que ele prevaleceria. Palhaço poderoso esse! Resgatando, agora, emoções  bloqueadas, escondidas pelo tempo. Tinha até me esquecido do tamanho da felicidade vivida. Porque será que as enterrei? É como se negasse ter vivido tempos tão incríveis. Talvez não valorizados. Pareço louca mesmo! As vezes duvido de mim. Sentada agora nesse tapete antigo, esse palhaço atrevido veio machucar meu coração. Reflito sobre as borboletas que enfeitam o seu chapéu. São azuis e amarelas. Fixo meus olhos nas borboletas azuis! Não sei porque. São quatro. Parece que querem voar e não conseguem. Fico com muita pena e, um tanto angustiada. Começo a chorar. Choro de raiva, misturado com compaixão. Decido não ficar nesse lugar! Quero mudar o meu astral. Desvio os olhos lentamente para as borboletas amarelas. Elas querem voar do chapéu do palhaço. Parecem mais espertas do que as azuis: não querem ficar presas naquele chapéu. Imediatamente me identifico com elas. Saio da ambivalência. SOU BORBOLETA AMARELA!

QUESTÃO DE PELE! ( ORGASMO).

Corações quentes. Atração. Dois corpos que se tocaram. Risos escancarados. Cócegas impertinentes. Aqui. Ali! Pontos sensíveis, os preferidos. Parecia até masoquismo. Prazer e dor. Dança insana, transformada em abraços voluptuosos. Beijos queimando as vísceras. Sensações transcendentais. Calor vindo das entranhas. Suores misturados, confundindo-se em suas nascentes. Respiração ofegante. Palavras desconexas. Sem ética. Amoral! Nos olhos o brilho louco do desejo, implorando caminhos a percorrer. Corrida louca, incontrolável para atingir o estado de nirvana. Fantasias malucas colorindo a mente. Entrega total. Já não dava mais pra voltar. LILÁS INTENSO CEGOU OS SENTIDOS!

FRAGMENTOS DE MIM! (VIDA OU MORTE).

Depois de um período nem sempre acolhedor que pode ser marcado por sensações prazerosas ou angustiantes, independente de nossa vontade consciente, nascemos! A jornada física no planeta terra começa ai. “Em psicanálise, as polaridades amor e ódio, vida e morte e outras, são forças que habitam o ser humano.. Estão presentes no cotidiano, tanto nos conflitos simples e banais, quanto nos mais mórbidos ou sublimes da humanidade”. Estes pares de opostos estão presentes, fundidos em tudo o que o ser humano faz, pensa e sente. Um impulso energético interno direciona as nossas ações, nosso comportamento, com o objetivo de equilíbrio interno, para gerar bem estar. Impulso de morte e pulsão de vida influenciam o nosso comportamento e sobrevivência humana. Seria perfeito que nessa chegada à terra houvesse festa, muita alegria e coração pulsante; no entanto, muitas vezes, isso não acontece.  “Conflito e angústia humana, mal administrados, podem causar desequilíbrio energético e danos a saúde”.  O destino com sua gama de acontecimentos  colabora muito pra que essa situação surja.  “Temos que ser guerreiros”! Com meu filho, sinto não ter evitado que recebesse sensações de meus desequilíbrios e angústias. Naquele momento não tinha a menor consciência do tamanho de minha insanidade emocional. Tampouco o quanto isso pudesse afetar a quem mais amava. “Egocentrismo impede de se olhar para fora”! Fui inconsciente e frágil. Andei só no caminho da dor, sem me dar conta que uma vida crescia dentro de mim. Precisava ser cuidada. Esperei tanto pra ter o meu Danilo. A descoberta da gravidez foi a sensação da mais inimaginável felicidade que já tinha sentido. Estrelas brilhavam em minha alma, diuturnamente. Enxoval escolhido como pedrinhas preciosas enfeitando o coração. Durou pouco. No sexto mês, já mostrando uma barriguinha redonda e linda, sentindo a vida pulsando com chutes e  pontapés vigorosos, a alegria de viver partiu. Tudo se transformou. Ouvi a notícia impiedosa na televisão:- O pai de meu filho tinha morrido. Acidente. Deus foi cruel comigo.  Morri também naquele instante! Danilo não! Continuava com seus movimentos em meu ventre dando sinais de vida. Meu coração não conseguia acompanhar o ritmo e os movimentos de Danilo. É como se ele quisesse me despertar para a vida.  Sentia muita culpa, tristeza e desejo de sumir. Carga pesada demais! Fragilizei. Foi então que meu filho resolveu antecipar a sua vinda. Nasceu prematuro. Num ambiente de intenso caos emocional. No dia em que ele chegou havia brumas nos céus encobrindo o brilho do sol amarelo do outono. Insistindo em nascer também! Parece que tinha havido um pacto entre meu filho e o sol! Os dois resolveram nascer juntos iluminando! Minha alma escurecida foi surpreendida pela luz de Danilo e pela luz do sol! Fiquei numa ambivalência total Senti uma desordem energética e afetiva em meu coração tão escuro.  E nessa  claridade abrupta, chorei. Chorei todas as dores intensas enterradas no âmago.. Chorei a culpa. Chorei a luz! Ressuscitei! Os olhos de Danilo eram idênticos  aos do meu amor perdido. Coração disparou. Naquele momento senti a  faísca da vida pulsar. De algum jeito estava  novamente junto aos amores de minha vida. Em meu processo terapêutico percebi que congelei sentimentos intensos sem conseguir processá-los. Fiquei cega aos matizes coloridos que continuaram  enfeitando o caminho. Compreendi que lidei com os meus limites possíveis de sobrevivência.  A perda sofrida  me aniquilou a razão. Só consegui pulsar na revolta e impotência, por dificuldade de encarar a realidade. Estava com a alma partida. O brilho dos olhos de Danilo e do rei sol, resgataram parte da minha energia perdida.  Foi mágico. Pulsação de vida preponderou.  “ESCOLHI VIVER”!

O GATO MORDEU A LINGUA! ( RECONCILIAÇÃO).

Tenho dois gatos. Manhosos e sensuais. Meio grudentos. Olhos azuis como o céu. Carentes. Os dois tem o peito coberto por pelos brancos. Um deles tem o nome de Frederico. O outro, Rafael. Cada um deles tem seu próprio jeito de ser. Frederico é simpático, afável, ao passo que Rafael é antipático, ensimesmado. Algumas vezes impertinente. Ranzinza. Não dá pra confiar em seu humor. Implicante como ele só! Não tolera Frederico. Harmonizar o ambiente com esses dois, não é fácil. Tem me dado muito trabalho. Converso muito com eles. Ainda bem que ambos são carinhosos. Sabem me conquistar diariamente. Pra mim é super importante ter conforto emocional dentro de casa. Confesso que tenho uma tendência instintiva em proteger Frederico. A sua energia tranquila combina com a minha.  Protejo mesmo Frederico! Não tolero o egocentrismo e falta de sensibilidade de Rafael. Algumas vezes já pensei até em abandoná-lo. Desisti. Não tem jeito. Eu o amo demais. Não sou de abandonar meus amores! Resolvi cuidar das diferenças e tentar conciliar. Não suportaria ficar longe dele. Seu toque é insubstituível, Mesmo sendo tão neurótico. Noutro dia, surpreendi meu lindo Frederico querendo brincar no tapete com Rafael. Milagres acontecem! Fiquei surpresa. Desta vez Rafael não o rejeitava. Milagrosamente, percebi que  estava envolvido com a brincadeira. Foi a primeira vez que vi os dois juntos e descontraídos. Fiquei feliz da vida com a cena. Senti que a relação estava melhorando. Alívio! Na verdade  incomodava muito perceber aquele nível de rejeição de Rafael por Frederico porque meu coração é profundamente apaixonado pelos dois. A cena deles brincando no tapete fez renascer em mim, a vontade da gente assistir filmes, comer pipoca, juntinhos na sala de estar. Trocar energia do amor. O bom da história é que desde aquele dia Rafael mudou! Agora busca sempre Frederico. Até o brilho de seu olhar azul ficou diferente quando estão juntos. Realmente Rafael mudou! Acredita que ele anda querendo casar comigo? Fiz aniversário semana passada. Sabe o que ganhei de niver dele? UMA LINDA NEVE. “MIAU”!

PÉS DESCALÇOS! ( PROTEÇÃO/DEFESA).

Estava num bosque. Era noite de verão. Lua cheia clareava as árvores e todo o ambiente ao redor. Mariposas voavam livremente, como dançarinas ao luar. Encantavam com seus movimentos suaves e ritmados. Comecei a caminhar empurrando os galhos que cruzavam o caminho. Suspense. Um certo medo vinha das entranhas. Fantasias misturadas com realidade tornando o momento fascinante e assustador. Isso não impedia de continuar a me embrenhar cada vez mais no desconhecido. Buscava mistérios e emoções! Fui andando. Passos vacilantes. Insistentes. Depois de algum tempo percebi que a claridade tinha diminuído muito. Frio na barriga repentino. Parei! Ouvi um ruído, como se fosse passos de algum animal grande. Paralisei! Pernas tremeram. Suor frio no rosto. Mãos geladas.  Respiração contida, pra não emitir som algum. Não podia chamar atenção. Fiquei assim, instintivamente, por alguns instantes. Coração queria saltar pela boca! Na mente, pensamentos de auto sobrevivência. Aqueles minutos pareciam intermináveis! Ansiedade intensa se apoderou de mim. “Ansiosa e aflita”! Num repente senti uma dor ardida no pé esquerdo. Aquela dor funcionou como uma “chamada para a realidade”. Consegui organizar minimamente os pensamentos.  Foi aí que percebi que estava descalça. Meu pé começou a sangrar. Doía muito! Percebi que algum espinho pontudo o tinha espetado. Como uma criança, comecei a chorar. Chorei muito.  Sangrava, sangue vermelho! Sentimentos misturados. Ambivalentes. Decidi interromper a caminhada. Comecei a retornar com passos lentos. Firmes! Protegendo o calcanhar esquerdo que doía muito se o colocasse no chão. Apoiava-me em alguns galhos quando a perna vacilava. Conforme fui retornando, a luz da lua foi retomando e clareando o bosque. Isso me energizou. Diminuiu o medo. Fui ficando mais tranquila, não fosse a dor no pé.  O coração se aliviando. Peito se abrindo. Finalmente reconheci onde me encontrava.  Incrível como fiquei mais segura. Não me sentia mais perdida. Uf! Caminhei mais um pouco e encontrei o  ponto de partida. Lá se encontravam os meus sapatos. “A luz da lua iluminava os meus sapatos vermelhos”! Estavam lá me esperando. Apressei os passos em direção a eles. Por alguns segundos até me esqueci do espinho no pé. Só fui lembrar quando apoiei o calcanhar no chão. Sentei-me numa pedra cinza, e, sob a luz do luar, arranquei o espinho dolorido. Doeu um bocado. Aliviou também.  Dei uns passos e fui lavar o machucado numa fonte ali pertinho. Assim que fui tentar colocar os sapatos, percebi um vulto se aproximando. Fiquei apreensiva. Estava tudo tão deserto! Meio alerta e muito atenta. Qual nada! Quando o vulto se aproximou, revelou-se a figura com que mais sonhei.  Parecia a história da Cinderela. Tinha a delicadeza própria dos príncipes de meus sonhos. Com um sorriso lindo em seu olhar, colocou os sapatos vermelhos em meus pés! DEU-SE O ENCANTO… (ACORDEI COM O TELEFONE TOCANDO).

SONHO/Trazido por Lina Maria. Moça jovem, inteligente e sensível, necessitando auto conhecimento e ampliação de consciência. Terapeuticamente será desenvolvido fortalecimento de sua relação com a realidade, integrando-a aos seus sonhos e desejos, respeitando os seus limites.

CASARÃO VERMELHO! (CORAÇÃO).

Passei por tantos ciclos. Cada um foi único. Simples. Sofisticado. Glamoroso. Colorido. Preto e branco! Muito diferente um do outro. Em cada um deles uma história emocional. Uma nova vibração. Diferentes sensações. Minha primeira morada foi quente. Energética. Tinha um “quê” de tristeza. Mas não sofri. Havia sintonia com afetos genuínos constantes.  Calor foi mais intenso do que ocasionais frios que ocorreram.  Sensações incríveis de vida. Pulsação! O segundo ciclo  assustou-me em muitos momentos. Risco de vida misturado com cheiro de pão quente saindo do forno. Ambivalência. Sabores e odores do forno quente, traçaram rumos para a próxima etapa onde cheguei feliz. Terceiro ciclo foi muito divertido. Inocente! Cores estimulantes embelezando a vida. Dava vontade de nunca mais sair de lá. Céu azul turquesa e nuvens cor de rosa.  O tempo soberano, não para. Não quis saber. Lá fui eu em direção ao caminho para o próximo ciclo. Cheguei e não acreditei! Foi melhor que o anterior. Singular. Músicas de todos os ritmos. Euforia. Paixão. Sons delirantes num convite a luxúria. Sedução! Muitas vezes, total confusão. Noutras, acolhimento e ternura. Dava pra pirar nesse vai e vem, não fosse o bom senso pedindo licença.. “Hormônios em excesso mobilizam e desestabilizam”! Outra morada de onde não queria partir. Era bom demais sentir a gangorra nas alturas! Também é verdade que muitas vezes sangrei. Pensava em parar por ali. Ir embora para sempre; então pulsava mais devagar, tentando segurar no que dava. No entanto, em algum outro momento, recebia energia vital voltando a pulsar com mais tranquilidade. Assim continuava  brincando e chorando no processo da vida. Confesso que muitas vezes fui incauto. Tive que carregar sequelas inevitáveis para o próximo momento. “Sonhos e fantasias idealizadas impossíveis de se realizarem”. Sofri novamente. Quase enfartei. Enfrentei dinossauros e abutres gigantes. Sobrevivi. Fui me fortalecendo com o transcorrer desse tempo. Não é raro um arco íris colorir o sangue vermelho. Mais amadurecido já sei o que busco nos sonhos. Nessa nova e última morada já me permito o infinito. Escolho com mais cuidado evitando flechas venenosas. Nem sempre consigo proteger-me.  Experiências vividas durante todo o meu processo de vida deixaram o legado de que sou dono de mim. Hoje me permito. Risonho ou carrancudo. Reagir e expressar sentimentos e afetos. Sejam quais forem. ” SANGUE VERMELHO VIVO PULSANTE DEIXANDO O CORAÇÃO LILÁS!”.

O SUFOCANTE PEDRO! ( ANULADOR DE IDENTIDADE).

Pedro, como pude me submeter a seus caprichos e vaidades por tanto tempo? Quando o conheci, não tinha ideia do quanto você era neurótico. Construí um castelo cor de rosa e você cabia lá direitinho. Preenchia todos o espaços dos sonhos e fantasias. Partimos juntos numa estrada com muitos percalços e incríveis construções. Construímos vidas lindas. Perfeitas! Loira. Ruiva. morena. Quadros pintados por Deus enfeitando a vida. Raízes fincadas em minhas vísceras pontuando sentimentos de todos tipos. Alguns devastadores outros tão suaves! Além dos momentos intensos em que me sentia uma verdadeira fada. Para mim eles eram perfeitos. Pedro, como  o amei! Pobre ingênua que fui. Confesso que eu era  carente demais  e envolvida com muito trabalho. Não restava tempo pra auto questionamento. Nunca o trabalho me assustou! Assim construí um mundo idealizado. Cuidar do ninho fazia parte do meu projeto de vida. Se não fosse seu jeito tóxico, camuflado, tudo estaria perfeito hoje. Mas seu comportamento não era tão evidente assim. Vinha em doses homeopáticas. Atitudes corrosivas devagarzinho minando o amor e admiração que sentia. Você só  competia comigo o tempo todo. Disputa constante. Queria ser o melhor em tudo. Sempre uma crítica ácida em relação a mim. “ATITUDES DEFINEM UMA PESSOA”. São determinantes. Palavras ficam jogadas ao vento! Custei a compreender isso. Acordei tarde demais. Quem sabe, lá atrás, no início de nossa relação eu pudesse  ter mudado rumos. Neguei a minha percepção. Talvez tenha sido uma defesa. Paciência! Eu me perdoo. Só busquei acertar! Sua atitude doente teve efeito cumulativo. Cansei de ser sufocada e engolida por você. Hoje, mais amadurecida e centrada admito que não dá mais. Acabou. Chega! O que é isso?  Sufocar minha identidade, fraquejar minhas pernas? Sem  nenhuma  cumplicidade ou respeito. Se eu me submetesse às suas vaidades, você era a melhor pessoa do mundo. Confesso que muitas vezes me sentia uma criança assustada, admitindo seu poder sobre mim. Que loucura! Decisões importantes ou banais tudo era só com você. O soberano! Lá fora, no social, ninguém imaginava esse seu comportamento doentio na intimidade. Lá, você usava máscaras. Lindas máscaras! Não foram poucas as vezes que o perdoei ao logo de tantos anos. Tampouco não foram poucas as vezes que chorei me prometendo abandoná-lo. A sua ambivalência confundia a minha cabeça. Se eu fosse “boazinha”, nosso lar tinha paz. Você fazia comidinha e sexo gostoso. Só o que importava era alimentar seu corpo e ego. Você era cego cara! Nunca viu minha alma. Muito menos meu coração. Onde já se viu tratar uma companheira assim! No fundo você tem raiva de mulher. Desequilibrado é o que você é. Narcísico! Ego inflado que acoberta fragilidade e Insegurança. Precisa de admiração o tempo todo. Dentro e fora de casa. Isso o enche de poder. Só assim suas pernas ficam fortes para cavalgar na vida.. Inconscientemente  sua alma pede socorro. Seu pedido está sendo atendido. Eu o liberto! Me liberto também. Se quiser você já pode caçar outras vítimas ou então buscar entender o menino mal resolvido, mesquinho, que existe em seu coração. Você quem decide. Quanto a mim? Tenho só uma certeza:- NÃO TEREI MAIS TORCICOLOS!