NÃO SEJA RIDÍCULO! ( IMATURIDADE).

Guilherme é figura que inspira os fracos. Sessenta e seis anos cronológicos e quinze mentais. Casado e pai de dois filhos adultos. Seu comportamento inadequado foi suportado pela esposa durante os trinta anos de convívio. No início do relacionamento Marina achava até graça quando o marido falava ou fazia coisas fora do contexto. Pensava que fazia parte da carência emocional  dele. Ele tinha tido uma infância difícil, pouco contato amoroso. Família numerosa e desestruturada. Ficava jogado nas ruas, cabulava aulas, sem direção e acompanhamento. Aprendeu a mentir pra se proteger de possíveis punições quando era indagado sobre alguma falha que cometera. Pais ausentes emocionalmente, porém, violentos. Sorte que na adolescência, um tio paterno se preocupou com o futuro  dele e resolveu investir em seus estudos. Guilherme foi obrigado a duras penas, entrar nos eixos e nos valores sociais. Teve que estudar muito. Foi muito cobrado pelo tio Jonas. Se deu bem profissionalmente. Formou-se em direito. Abriu um escritório na área trabalhista, ganhou um bom dinheiro. Só o seu caráter imaturo que não mudou, pelo contrário, ficou mais crápula ainda. Esse traço era mais evidente na intimidade. Sabia usar máscaras no social! Quando Marina o conheceu na faculdade, ficou encantada. Nem imaginava que aquele bonitão brincalhão tinha caráter fraco. Era um sedutor inveterado e disfarçado. Com o passar dos tempos ela conheceu o marido infiel que lhe causou muitas lágrimas. Mulher forte. Segurou a onda! Conseguiu conservar a família unida, engolindo raivas e dissabores ao ponto de desenvolver intensa gastrite. Apaixonada pelas suas crianças. Deu duro na formação do caráter deles. Não pensava em si. Doou-se inteira. Agora, depois de tanto tempo, filhos independentes e bem direcionados na vida, não quer mais auto sabotar-se. -“Guilherme potencializou seus defeitos. Transformou-se numa imagem piegas do sessentão com cabeça de adolescente. Sua linguagem, atitudes e interesses são fúteis e escrachados. Pornografia e cachaça são seus vícios. Aposentado, boa situação financeira, gasta tudo nos bares da vida. É um imbecil, sentindo-se um jovenzinho sedutor. Adora menininhas! Desprezível como ser humano”! – Essa foi a fala de Marina. “CIC”.  Ela o enxotou de sua vida. Marina veio buscar ajuda terapêutica. Juntar destroços internos e se perdoar. Está gostando do novo sabor de sua vida (jardins de girassóis). Descobriu-se corajosa, bonita e inteligente. Vai retomar os estudos. Desta vez quer fazer psicologia. Diz brincando: “Quero ajudar outras Marinas em tempo hábil”. Estamos trabalhando nessa questão. Será desejo genuíno ou transferência terapêutica? Sua viagem interna lhe dará a resposta. Está atenta. Vida nova. “MARINA NÃO PODE SE ENGANAR DESTA VEZ”!

 

 

QUADRO NA PAREDE! (DEVANEIO/DECISÃO).

Tarde fria e úmida. Gotas da chuva escorrendo pelos vidros das janelas. Parecem lágrimas de uma tarde triste! Luzes dos faróis  se refletem nessas lágrimas, despertando uma sensação muito estranha. Sinto que o coração ganhou um peso insustentável. Está disparado, buscando correr dessa angústia inesperada. Tento sair desse estado emocional, direcionando os pensamentos para o ambiente da sala, onde me encontro. Sentada no velho tapete bege; ansiosa, olho ao redor. Minhas pupilas buscam rapidamente algum ponto que me transporte a uma sensação mais leve. Muito ruim ficar assim! Volto os olhos a um quadro colorido, pendurado na parede, pertinho do piano. Ele sempre esteve ali. Só agora percebo os detalhes. Nunca o tinha visto assim! Fico fixada na expressão do palhaço, chorando de tanto rir.  Palhaço diferente! Tem um brilho estranho no olhar. Alegre e triste. Emoções misturadas que confundem a minha mente. Fico intrigada! O que será que ele esconde dentro de si? Que histórias? Expressão ambivalente que  mexe em sentimentos ambíguos, ancorados bem lá no fundo de meu peito. Chega um certo frio na barriga junto à saudade de morrer. Vida ingrata! Tudo que é bom escapa, vai embora. Tempos que não voltam. Lembranças intensas. Crianças brincando, correndo pela sala, atropelando os adultos, numa alegria genuína. Lembro que esse palhaço assustava a pequena Jana. Ela tinha medo. “Bicho papão”! Achava engraçado e cobria o quadro. Queria protege-la de fantasias ruins. Hoje eu a entendo melhor! Naquela época não cabiam falsidades. Tampouco inveja, competição ou qualquer sentimento tóxico. Tudo tão natural! Discussões eram como uma vitamina  que nutriam ainda mais os vínculos. Girassóis, roseiras e pardais! Sempre havia uma cor de fundo iluminando os contatos. Risos abertos. Palavras francas, algumas vezes duras, repassando a mensagem clara e bem dirigida. A confiança era tanta que nunca se duvidava do amor! A gente sabia que ele prevaleceria. Palhaço poderoso esse! Resgatando, agora, emoções  bloqueadas, escondidas pelo tempo. Tinha até me esquecido do tamanho da felicidade vivida. Porque será que as enterrei? É como se negasse ter vivido tempos tão incríveis. Talvez não valorizados. Pareço louca mesmo! As vezes duvido de mim. Sentada agora nesse tapete antigo, esse palhaço atrevido veio machucar meu coração. Reflito sobre as borboletas que enfeitam o seu chapéu. São azuis e amarelas. Fixo meus olhos nas borboletas azuis! Não sei porque. São quatro. Parece que querem voar e não conseguem. Fico com muita pena e, um tanto angustiada. Começo a chorar. Choro de raiva, misturado com compaixão. Decido não ficar nesse lugar! Quero mudar o meu astral. Desvio os olhos lentamente para as borboletas amarelas. Elas querem voar do chapéu do palhaço. Parecem mais espertas do que as azuis: não querem ficar presas naquele chapéu. Imediatamente me identifico com elas. Saio da ambivalência. SOU BORBOLETA AMARELA!

QUESTÃO DE PELE! ( ORGASMO).

Corações quentes. Atração. Dois corpos que se tocaram. Risos escancarados. Cócegas impertinentes. Aqui. Ali! Pontos sensíveis, os preferidos. Parecia até masoquismo. Prazer e dor. Dança insana, transformada em abraços voluptuosos. Beijos queimando as vísceras. Sensações transcendentais. Calor vindo das entranhas. Suores misturados, confundindo-se em suas nascentes. Respiração ofegante. Palavras desconexas. Sem ética. Amoral! Nos olhos o brilho louco do desejo, implorando caminhos a percorrer. Corrida louca, incontrolável para atingir o estado de nirvana. Fantasias malucas colorindo a mente. Entrega total. Já não dava mais pra voltar. LILÁS INTENSO CEGOU OS SENTIDOS!

FRAGMENTOS DE MIM! (VIDA OU MORTE).

Depois de um período nem sempre acolhedor que pode ser marcado por sensações prazerosas ou angustiantes, independente de nossa vontade consciente, nascemos! A jornada física no planeta terra começa ai. “Em psicanálise, as polaridades amor e ódio, vida e morte e outras, são forças que habitam o ser humano.. Estão presentes no cotidiano, tanto nos conflitos simples e banais, quanto nos mais mórbidos ou sublimes da humanidade”. Estes pares de opostos estão presentes, fundidos em tudo o que o ser humano faz, pensa e sente. Um impulso energético interno direciona as nossas ações, nosso comportamento, com o objetivo de equilíbrio interno, para gerar bem estar. Impulso de morte e pulsão de vida influenciam o nosso comportamento e sobrevivência humana. Seria perfeito que nessa chegada à terra houvesse festa, muita alegria e coração pulsante; no entanto, muitas vezes, isso não acontece.  “Conflito e angústia humana, mal administrados, podem causar desequilíbrio energético e danos a saúde”.  O destino com sua gama de acontecimentos  colabora muito pra que essa situação surja.  “Temos que ser guerreiros”! Com meu filho, sinto não ter evitado que recebesse sensações de meus desequilíbrios e angústias. Naquele momento não tinha a menor consciência do tamanho de minha insanidade emocional. Tampouco o quanto isso pudesse afetar a quem mais amava. “Egocentrismo impede de se olhar para fora”! Fui inconsciente e frágil. Andei só no caminho da dor, sem me dar conta que uma vida crescia dentro de mim. Precisava ser cuidada. Esperei tanto pra ter o meu Danilo. A descoberta da gravidez foi a sensação da mais inimaginável felicidade que já tinha sentido. Estrelas brilhavam em minha alma, diuturnamente. Enxoval escolhido como pedrinhas preciosas enfeitando o coração. Durou pouco. No sexto mês, já mostrando uma barriguinha redonda e linda, sentindo a vida pulsando com chutes e  pontapés vigorosos, a alegria de viver partiu. Tudo se transformou. Ouvi a notícia impiedosa na televisão:- O pai de meu filho tinha morrido. Acidente. Deus foi cruel comigo.  Morri também naquele instante! Danilo não! Continuava com seus movimentos em meu ventre dando sinais de vida. Meu coração não conseguia acompanhar o ritmo e os movimentos de Danilo. É como se ele quisesse me despertar para a vida.  Sentia muita culpa, tristeza e desejo de sumir. Carga pesada demais! Fragilizei. Foi então que meu filho resolveu antecipar a sua vinda. Nasceu prematuro. Num ambiente de intenso caos emocional. No dia em que ele chegou havia brumas nos céus encobrindo o brilho do sol amarelo do outono. Insistindo em nascer também! Parece que tinha havido um pacto entre meu filho e o sol! Os dois resolveram nascer juntos iluminando! Minha alma escurecida foi surpreendida pela luz de Danilo e pela luz do sol! Fiquei numa ambivalência total Senti uma desordem energética e afetiva em meu coração tão escuro.  E nessa  claridade abrupta, chorei. Chorei todas as dores intensas enterradas no âmago.. Chorei a culpa. Chorei a luz! Ressuscitei! Os olhos de Danilo eram idênticos  aos do meu amor perdido. Coração disparou. Naquele momento senti a  faísca da vida pulsar. De algum jeito estava  novamente junto aos amores de minha vida. Em meu processo terapêutico percebi que congelei sentimentos intensos sem conseguir processá-los. Fiquei cega aos matizes coloridos que continuaram  enfeitando o caminho. Compreendi que lidei com os meus limites possíveis de sobrevivência.  A perda sofrida  me aniquilou a razão. Só consegui pulsar na revolta e impotência, por dificuldade de encarar a realidade. Estava com a alma partida. O brilho dos olhos de Danilo e do rei sol, resgataram parte da minha energia perdida.  Foi mágico. Pulsação de vida preponderou.  “ESCOLHI VIVER”!

O GATO MORDEU A LINGUA! ( RECONCILIAÇÃO).

Tenho dois gatos. Manhosos e sensuais. Meio grudentos. Olhos azuis como o céu. Carentes. Os dois tem o peito coberto por pelos brancos. Um deles tem o nome de Frederico. O outro, Rafael. Cada um deles tem seu próprio jeito de ser. Frederico é simpático, afável, ao passo que Rafael é antipático, ensimesmado. Algumas vezes impertinente. Ranzinza. Não dá pra confiar em seu humor. Implicante como ele só! Não tolera Frederico. Harmonizar o ambiente com esses dois, não é fácil. Tem me dado muito trabalho. Converso muito com eles. Ainda bem que ambos são carinhosos. Sabem me conquistar diariamente. Pra mim é super importante ter conforto emocional dentro de casa. Confesso que tenho uma tendência instintiva em proteger Frederico. A sua energia tranquila combina com a minha.  Protejo mesmo Frederico! Não tolero o egocentrismo e falta de sensibilidade de Rafael. Algumas vezes já pensei até em abandoná-lo. Desisti. Não tem jeito. Eu o amo demais. Não sou de abandonar meus amores! Resolvi cuidar das diferenças e tentar conciliar. Não suportaria ficar longe dele. Seu toque é insubstituível, Mesmo sendo tão neurótico. Noutro dia, surpreendi meu lindo Frederico querendo brincar no tapete com Rafael. Milagres acontecem! Fiquei surpresa. Desta vez Rafael não o rejeitava. Milagrosamente, percebi que  estava envolvido com a brincadeira. Foi a primeira vez que vi os dois juntos e descontraídos. Fiquei feliz da vida com a cena. Senti que a relação estava melhorando. Alívio! Na verdade  incomodava muito perceber aquele nível de rejeição de Rafael por Frederico porque meu coração é profundamente apaixonado pelos dois. A cena deles brincando no tapete fez renascer em mim, a vontade da gente assistir filmes, comer pipoca, juntinhos na sala de estar. Trocar energia do amor. O bom da história é que desde aquele dia Rafael mudou! Agora busca sempre Frederico. Até o brilho de seu olhar azul ficou diferente quando estão juntos. Realmente Rafael mudou! Acredita que ele anda querendo casar comigo? Fiz aniversário semana passada. Sabe o que ganhei de niver dele? UMA LINDA NEVE. “MIAU”!

PÉS DESCALÇOS! ( PROTEÇÃO/DEFESA).

Estava num bosque. Era noite de verão. Lua cheia clareava as árvores e todo o ambiente ao redor. Mariposas voavam livremente, como dançarinas ao luar. Encantavam com seus movimentos suaves e ritmados. Comecei a caminhar empurrando os galhos que cruzavam o caminho. Suspense. Um certo medo vinha das entranhas. Fantasias misturadas com realidade tornando o momento fascinante e assustador. Isso não impedia de continuar a me embrenhar cada vez mais no desconhecido. Buscava mistérios e emoções! Fui andando. Passos vacilantes. Insistentes. Depois de algum tempo percebi que a claridade tinha diminuído muito. Frio na barriga repentino. Parei! Ouvi um ruído, como se fosse passos de algum animal grande. Paralisei! Pernas tremeram. Suor frio no rosto. Mãos geladas.  Respiração contida, pra não emitir som algum. Não podia chamar atenção. Fiquei assim, instintivamente, por alguns instantes. Coração queria saltar pela boca! Na mente, pensamentos de auto sobrevivência. Aqueles minutos pareciam intermináveis! Ansiedade intensa se apoderou de mim. “Ansiosa e aflita”! Num repente senti uma dor ardida no pé esquerdo. Aquela dor funcionou como uma “chamada para a realidade”. Consegui organizar minimamente os pensamentos.  Foi aí que percebi que estava descalça. Meu pé começou a sangrar. Doía muito! Percebi que algum espinho pontudo o tinha espetado. Como uma criança, comecei a chorar. Chorei muito.  Sangrava, sangue vermelho! Sentimentos misturados. Ambivalentes. Decidi interromper a caminhada. Comecei a retornar com passos lentos. Firmes! Protegendo o calcanhar esquerdo que doía muito se o colocasse no chão. Apoiava-me em alguns galhos quando a perna vacilava. Conforme fui retornando, a luz da lua foi retomando e clareando o bosque. Isso me energizou. Diminuiu o medo. Fui ficando mais tranquila, não fosse a dor no pé.  O coração se aliviando. Peito se abrindo. Finalmente reconheci onde me encontrava.  Incrível como fiquei mais segura. Não me sentia mais perdida. Uf! Caminhei mais um pouco e encontrei o  ponto de partida. Lá se encontravam os meus sapatos. “A luz da lua iluminava os meus sapatos vermelhos”! Estavam lá me esperando. Apressei os passos em direção a eles. Por alguns segundos até me esqueci do espinho no pé. Só fui lembrar quando apoiei o calcanhar no chão. Sentei-me numa pedra cinza, e, sob a luz do luar, arranquei o espinho dolorido. Doeu um bocado. Aliviou também.  Dei uns passos e fui lavar o machucado numa fonte ali pertinho. Assim que fui tentar colocar os sapatos, percebi um vulto se aproximando. Fiquei apreensiva. Estava tudo tão deserto! Meio alerta e muito atenta. Qual nada! Quando o vulto se aproximou, revelou-se a figura com que mais sonhei.  Parecia a história da Cinderela. Tinha a delicadeza própria dos príncipes de meus sonhos. Com um sorriso lindo em seu olhar, colocou os sapatos vermelhos em meus pés! DEU-SE O ENCANTO… (ACORDEI COM O TELEFONE TOCANDO).

SONHO/Trazido por Lina Maria. Moça jovem, inteligente e sensível, necessitando auto conhecimento e ampliação de consciência. Terapeuticamente será desenvolvido fortalecimento de sua relação com a realidade, integrando-a aos seus sonhos e desejos, respeitando os seus limites.

CASARÃO VERMELHO! (CORAÇÃO).

Passei por tantos ciclos. Cada um foi único. Simples. Sofisticado. Glamoroso. Colorido. Preto e branco! Muito diferente um do outro. Em cada um deles uma história emocional. Uma nova vibração. Diferentes sensações. Minha primeira morada foi quente. Energética. Tinha um “quê” de tristeza. Mas não sofri. Havia sintonia com afetos genuínos constantes.  Calor foi mais intenso do que ocasionais frios que ocorreram.  Sensações incríveis de vida. Pulsação! O segundo ciclo  assustou-me em muitos momentos. Risco de vida misturado com cheiro de pão quente saindo do forno. Ambivalência. Sabores e odores do forno quente, traçaram rumos para a próxima etapa onde cheguei feliz. Terceiro ciclo foi muito divertido. Inocente! Cores estimulantes embelezando a vida. Dava vontade de nunca mais sair de lá. Céu azul turquesa e nuvens cor de rosa.  O tempo soberano, não para. Não quis saber. Lá fui eu em direção ao caminho para o próximo ciclo. Cheguei e não acreditei! Foi melhor que o anterior. Singular. Músicas de todos os ritmos. Euforia. Paixão. Sons delirantes num convite a luxúria. Sedução! Muitas vezes, total confusão. Noutras, acolhimento e ternura. Dava pra pirar nesse vai e vem, não fosse o bom senso pedindo licença.. “Hormônios em excesso mobilizam e desestabilizam”! Outra morada de onde não queria partir. Era bom demais sentir a gangorra nas alturas! Também é verdade que muitas vezes sangrei. Pensava em parar por ali. Ir embora para sempre; então pulsava mais devagar, tentando segurar no que dava. No entanto, em algum outro momento, recebia energia vital voltando a pulsar com mais tranquilidade. Assim continuava  brincando e chorando no processo da vida. Confesso que muitas vezes fui incauto. Tive que carregar sequelas inevitáveis para o próximo momento. “Sonhos e fantasias idealizadas impossíveis de se realizarem”. Sofri novamente. Quase enfartei. Enfrentei dinossauros e abutres gigantes. Sobrevivi. Fui me fortalecendo com o transcorrer desse tempo. Não é raro um arco íris colorir o sangue vermelho. Mais amadurecido já sei o que busco nos sonhos. Nessa nova e última morada já me permito o infinito. Escolho com mais cuidado evitando flechas venenosas. Nem sempre consigo proteger-me.  Experiências vividas durante todo o meu processo de vida deixaram o legado de que sou dono de mim. Hoje me permito. Risonho ou carrancudo. Reagir e expressar sentimentos e afetos. Sejam quais forem. ” SANGUE VERMELHO VIVO PULSANTE DEIXANDO O CORAÇÃO LILÁS!”.

O SUFOCANTE PEDRO! ( ANULADOR DE IDENTIDADE).

Pedro, como pude me submeter a seus caprichos e vaidades por tanto tempo? Quando o conheci, não tinha ideia do quanto você era neurótico. Construí um castelo cor de rosa e você cabia lá direitinho. Preenchia todos o espaços dos sonhos e fantasias. Partimos juntos numa estrada com muitos percalços e incríveis construções. Construímos vidas lindas. Perfeitas! Loira. Ruiva. morena. Quadros pintados por Deus enfeitando a vida. Raízes fincadas em minhas vísceras pontuando sentimentos de todos tipos. Alguns devastadores outros tão suaves! Além dos momentos intensos em que me sentia uma verdadeira fada. Para mim eles eram perfeitos. Pedro, como  o amei! Pobre ingênua que fui. Confesso que eu era  carente demais  e envolvida com muito trabalho. Não restava tempo pra auto questionamento. Nunca o trabalho me assustou! Assim construí um mundo idealizado. Cuidar do ninho fazia parte do meu projeto de vida. Se não fosse seu jeito tóxico, camuflado, tudo estaria perfeito hoje. Mas seu comportamento não era tão evidente assim. Vinha em doses homeopáticas. Atitudes corrosivas devagarzinho minando o amor e admiração que sentia. Você só  competia comigo o tempo todo. Disputa constante. Queria ser o melhor em tudo. Sempre uma crítica ácida em relação a mim. “ATITUDES DEFINEM UMA PESSOA”. São determinantes. Palavras ficam jogadas ao vento! Custei a compreender isso. Acordei tarde demais. Quem sabe, lá atrás, no início de nossa relação eu pudesse  ter mudado rumos. Neguei a minha percepção. Talvez tenha sido uma defesa. Paciência! Eu me perdoo. Só busquei acertar! Sua atitude doente teve efeito cumulativo. Cansei de ser sufocada e engolida por você. Hoje, mais amadurecida e centrada admito que não dá mais. Acabou. Chega! O que é isso?  Sufocar minha identidade, fraquejar minhas pernas? Sem  nenhuma  cumplicidade ou respeito. Se eu me submetesse às suas vaidades, você era a melhor pessoa do mundo. Confesso que muitas vezes me sentia uma criança assustada, admitindo seu poder sobre mim. Que loucura! Decisões importantes ou banais tudo era só com você. O soberano! Lá fora, no social, ninguém imaginava esse seu comportamento doentio na intimidade. Lá, você usava máscaras. Lindas máscaras! Não foram poucas as vezes que o perdoei ao logo de tantos anos. Tampouco não foram poucas as vezes que chorei me prometendo abandoná-lo. A sua ambivalência confundia a minha cabeça. Se eu fosse “boazinha”, nosso lar tinha paz. Você fazia comidinha e sexo gostoso. Só o que importava era alimentar seu corpo e ego. Você era cego cara! Nunca viu minha alma. Muito menos meu coração. Onde já se viu tratar uma companheira assim! No fundo você tem raiva de mulher. Desequilibrado é o que você é. Narcísico! Ego inflado que acoberta fragilidade e Insegurança. Precisa de admiração o tempo todo. Dentro e fora de casa. Isso o enche de poder. Só assim suas pernas ficam fortes para cavalgar na vida.. Inconscientemente  sua alma pede socorro. Seu pedido está sendo atendido. Eu o liberto! Me liberto também. Se quiser você já pode caçar outras vítimas ou então buscar entender o menino mal resolvido, mesquinho, que existe em seu coração. Você quem decide. Quanto a mim? Tenho só uma certeza:- NÃO TEREI MAIS TORCICOLOS!

” NAS GARRAS DA SAUDADE”! (SENSAÇÕES MEDIATAS).

Vão passando os anos. Tanto tempo já se passou. Ainda não o esqueci. Parece que foi ontem que o vi pela última vez. Seus olhos emanavam uma energia intrigante. Brilho intenso, devorador. Nunca antes acontecido! Acho que não estava preparada. Só o via como um grande ombro amigo. Aquilo me assustou. Seus lábios não disseram nada do que eu esperava ouvir. Já o olhar maroto delatou seu coração! Pra mim, éramos como dois amigos, alma gêmeas. Confidentes. Cúmplices em muitas situações. Felipe preenchia lacunas de um casamento “AGRIDOCE”! Augusto, meu marido nunca teve ciúmes de Felipe. Tinha um certo desprezo pelo seu jeito simples e natural de ser. Muitas vezes eu estranhava a paciência infinita que Felipe tinha comigo. Ouvia por horas meus queixumes. Sempre me entendendo. Incondicionalmente. Nunca, nunca mesmo, me julgava. Apenas ouvia meus conflitos, enquanto passava as mãos entre os meus cabelos. Um gesto de carinho que só  ele sabia ter. As conversas geralmente aconteciam em fins de tarde no café da esquina da avenida Junqueira. Bem pertinho da igreja matriz do centro da cidade. Viraram hábito esses encontros. No mínimo duas vezes por semana. Ele me fazia tão bem! Tão delicado. Depois de muitas conversas eu voltava pra casa leve. Animada da vida. Felipe despertava o melhor em mim! Não sei bem porque nossas conversas aumentavam o tesão que eu sentia por Augusto, meu companheiro. Após meus desabafos acompanhados com café e pão de queijo quentinho, chegando em casa me sentia incrivelmente energizada. Colocava um jazz. Enfrentava o fogão. Preparava pratinhos apetitosos para o jantar, tentando investir num clima emocional bom. Normalmente regados a bom vinho. Depois. Ah, depois… Amor enlouquecido! Nem sentíamos o tempo passar. Muito tesão. Sensação de vida. Tudo parecia perfeito. Esse era o ponto alto da nossa relação. “Só sexo não sustenta uma relação saudável”! Essa energia prazerosa durava até a próxima briga. (Briga constante corrói  relação). Augusto me sufocava. Ciúmes doentios. “Sempre tive alma livre”. Não sou mulher para ficar enjaulada. Preciso respirar! As recorrentes brigas e o seu controle, minavam minha energia. O conforto era sempre o meu amigo Felipe. Alto astral. Bom papo. Disponível. Em nossas tardes ele alimentava minha alegria de viver. Parecia um terapeuta. Ele sempre me falava porque eu insistia  num casamento desiquilibrado. Muitas vezes questionei o que me prendia ao Augusto além de sexo. Não havia paz. Nem confiança. De ambos os lados. Recebia respostas absurdas de meu coração. Sentia que estava enfeitiçada ou muito insana mesmo! Um dia, cansada dessa insalubridade, resolvi ter atitude. Mudar rumos. Matriculei-me em sociologia numa renomada universidade em São Paulo. Voltaria quinzenalmente para casa. Ares novos! Última chance  à um casamento falido. Achei que essa trégua traria reflexões e mudanças. Seria um exercício que poderia fortalecer ou desfazer a minha relação de vez. Comuniquei a Augusto minha decisão. Entendeu a mensagem! Teve que aceitar. Ele iria nos fins de semana em que eu não viesse. Pra quem morava a cento e oitenta quilômetros de distância era uma aventura e tanto! Focar mais em mim. Conhecer pessoas. Recomeçar com qualidade os  estudos e a vida. Reforçar a minha identidade de mulher. Naquela última sexta feira de janeiro, no usual encontro com Felipe, comuniquei a minha decisão. Ele ficou estranhamente esquisito. Até fiquei constrangida. Um grande amigo não deveria reagir assim! Seu silêncio me incomodou. Não fosse o brilho estranho de seu olhar acho que teria virado as costas e ido embora. Senti algo novo e mobilizador mas preferi fugir. Não podia naquele momento.  Fugimos daquele brilho traidor. Neguei! Negamos. Nem quis questionar. Estava de malas prontas. A partir dai nossas conversas foram se escasseando. Cessaram! Fui embora. Por lá fiquei os últimos quatro longos anos. Voltei mudada. Determinada. Poderosa. Sabendo que queria ser feliz! Augusto não teve jeito mesmo. Estamos em divórcio litigioso. O brilho daquele olhar ainda está aqui. Só de passar perto do café onde a gente se via me dá um frio na barriga! Tenho tantas saudades, Felipe. SERÁ QUE AINDA?

O SONHO DA CINDERELA! (RESOLUÇÃO).

Como nas fantasias, ela é linda. Pele de porcelana. Sorriso aberto e franco. Luz intensa no olhar.  Altivez na postura, voz doce. Suave e meiga. Quando precisa, sabe ser incisiva e firme. Sua presença traz a energia da paz.  Quando pequena, muito traquina. Haja traquinagem! Subia nas árvores com a agilidade dos macaquinhos. Um tanto silenciosa. O seu mundo devia ser muito encantado!  Sempre brincando sozinha. Cresceu com sua beleza. “Bela e sensível”! Transformou-se numa linda mulher-menina. Expressão infantil, delicada e carente. A vida lhe trouxe amarguras! Por ignorância ou egoísmo, seus pais, sua família , não souberam lidar com a imensa sensibilidade daquela criança. Ela não recebeu o quinhão justo de afeto e atenção que merecia. Não souberam entender a criança calada que gostava de ficar isolada em seu mundinho fantasioso. Todos os sentimentos que não foram expressos e ficaram blindados em seu peito.  A linda Cinderela sofreu sem acolhimento.  Sem ter se sentido vista. Amarguras acumuladas ao longo da infância e adolescência. Essa mulher menina, ainda com  olhos brilhantes, buscou terapia para entender melhor o seu coração. Tem um sonho recorrente que está tirando o seu sono há  mais de um dois meses:- SONHO – Está deitada na calçada, na esquina  da casa em que morava na adolescência. “Casa assobradada,  confortável, ampla. Morou lá durante a meninice até vinte e poucos anos “. Exposta na rua, não estava constrangida em ser criticada ou vista. Sentia-se bem. Libertada. Leve. Em outros sonhos, também recorrentes, ela estava sempre dentro da mesma casa, com suas irmãs e pais. Queria sair e não conseguia.  Acordava sempre sufocada. Ao contrário, neste último sonho, a sensação de liberdade por não se importar em estar fora da casa e não se preocupar com expectativas dos outros em relação a ela mexeu em seu interno. Ficou ambivalente em alguns aspectos; no entanto, a força energética de sentir-se feliz em manter-se no lugar que ela própria escolhera foi salvadora.  Não se importar com crítica e rejeição foi como sair de uma prisão de segurança máxima. “Não quer continuar a ser refém de sua história”! O fato de sentir-se fora da casa, com tantos registros traumáticos, responsáveis pela sua contenção emocional, foi sentido como um auto resgate da alma. De lá para cá, muitas coisas estão mudando em sua vida. Cinderela finalmente já pode chorar. Rir. gritar.  Está deixando para trás a menina contida. Já consegue entrar e sair da casa quando bem entende. TEM SUAS PROPRIAS CHAVES!