“SORVETE NO PORTÃO”! ( CARÊNCIA/ INSEGURANÇA).

Isaura. Doce Isaura. Quando criança suportou muito preconceito pelo seu jeito diferente de ser. Sofreu o diabo! Nasceu mais introspectiva, é certo, porém, o ambiente familiar contribuiu muito para intensificar características de insegura e fragilidade. Filha de pais ausentes, além disso, sofreu consequências de ser o “sanduíche” entre duas irmãs extremamente competitivas, indiferentes à sua meiguice e intensa sensibilidade. Pareciam dois tratores quando o tema era ocupar espaço! “Engoliam como jiboia a identidade da menina”. Isaura não tinha recursos internos para reagir. Esse quadro recorrente foi desenvolvendo em Isaura intensa carência e dificuldades de expressões genuínas. Chegando à idade escolar, inevitavelmente, levou esse pesado pacote emocional para dentro da sala de aula. Seus pais, inadvertidamente, envolvidos tão somente com o profissional e com o próprio casamento desestruturado. Cheio de brigas e agressões verbais. Não percebiam a  angústia velada da filha. Deixaram de desempenhar suas funções como genitores equilibrados e responsáveis. Não  cuidaram da família que construíram. Sua mãe, Maria, acordou pra realidade só depois do difícil divórcio e tentou do melhor jeito que conseguiu resolver a situação. “O mal já estava feito!”.  Buraco emocional instalado, principalmente, no peito da sensível Isaura. Maria esteve cega! Por longos anos não enxergou a realidade que estava bem embaixo de seu nariz. Faltou consciência. Maturidade. Integração! Encarar de frente problemas relacionais nutridos dentro de casa. Cuidar da estrutura emocional da família. Parte fundamental no papel dos pais! Quando se conscientizou, sofreu muito. Sentiu-se extremamente culpada. Nessa altura já estava separada do marido racional e déspota que teve a infelicidade de escolher como  pai de suas filhas. Quando se livrou desse homem, amadureceu. Começou olhar ao redor. Ocupar sua função de genitora. Passou a batalhar o quanto pode pra resgatar o tempo perdido e ser um bom modelo de mulher e mãe. Ver principalmente a filha Isaura socialmente inserida e feliz. Também, desenvolver maior contato com suas duas outras filhas e melhorar as relações entre as irmãs e com ela própria. Esse objetivo passou a ser sua meta. Lutou! Muitas vezes foi nocauteada. Nunca desistiu. Quando percebia o sofrimento de Isaura na escola por não conseguir se enturmar e as dificuldades em acompanhar pedagogicamente a turma, Maria se descabelava. Agora a briga era dela! Resolveu que precisava estar presente no dia dia. Exagerou! Tentava compensar a fragilidade da filha superprotegendo-a, sem perceber que essa atitude deixava a menina mais insegura ainda. Alguns maldosos rotulavam Isaura com apelidos pejorativos. “Esquisita” era o apelido mais suave! Nesse meio emocional de rejeição, Isaura intensificava sua contenção e atitudes desastrosas. Concomitantemente, como é natural, foi desenvolvendo cada vez mais, necessidade de ser aceita e admirada. Sem percepção de tempo e espaço, tentava agradar às pessoas absurdamente. Numa tentativa inocente em se sentir aceita, tornou-se muito tagarela. Valia qualquer assunto.  Comentários fora dos contextos é o que mais fazia. Motivo de crescentes indiferenças e rejeições. Chacotas camufladas aconteciam! Sua verdadeira identidade cada vez mais sufocada.  Comportamento inadequado, funcionava como uma bola de neve, só crescia. Certa vez, Antônia, amiga comum de suas irmãs, foi fazer uma visita a elas. Quando essa amiga chegou, assim que apertou a campainha, Isaura em sua extrema carência e ansiedade correu ao congelador, pegou um delicioso sorvete de morango e foi depressa receber Antônia. Sorrindo, abriu o portão segurando o geladinho. Ali mesmo, sem esperar que a amiga entrasse, insistiu que ela pegasse e provasse o sorvete! Antônia meio sem graça, constrangida, estranhou. Não sabia se aceitava ou não. Deu uma desculpa qualquer deixando para depois. As irmãs presenciaram  a cena e começaram a gozar de Isaura. Esse fato foi um importante divisor de águas em sua vida emocional. “Sorvete no portão”! Expressão que se tornou gozação. A partir dai, toda vez que se falasse no tema “carência”, esse termo passou a ser usado pelas irmãs como referência de extrema carência. “Olha o sorvete no portão “! Maria, sua mãe, depois de intensa crise no casamento, já separada, arranjou  tempo para  olhar e acolher suas filhas tão esquecidas por ela! Queria resgatar o tempo perdido. Percebeu a extrema carência de Isaura. Conversou muito com a filha. Aqueceu a relação entre elas. Tentou obter de Isaura sentimentos não expressos, guardados lá no fundo do coração. Foi difícil a aproximação. Paulatinamente, Isaura foi cedendo. Maria fez o possível! Investigou como uma boa mãe deve fazer as histórias e queixas de rejeição sofrida por Isaura. Não censurou. Não julgou. Apenas acolheu com o coração. Conseguiu falar de carinho e amor. Pela primeira vez em seus treze anos de idade, Isaura sentiu a mãe próxima e afetuosa. Conversaram muito. Longas conversas! Por estar adolescendo, Isaura  estava com maior percepção de sua dificuldades emocionais, conseguindo reconhecer sua ansiedade em agradar as pessoas e as atitudes errôneas que usava pra isso. “Não conseguia agir naturalmente”. Falou que detestou a gozação das irmãs e a reação da amiga Antônia. ‘Esse fato  acionou sentimentos calados pelo tempo”. Maria, atenta, achou que seria um bom momento para Isaura iniciar um processo em psicoterapia. Decidiu que buscar organizar o psicológico de Isaura seria essencial naquele momento. Resgatar sua identidade. Sorte que encontrou Mariza. Psicóloga sensível, amadurecida e experiente. Soube desenvolver uma relação de confiança e aceitação  com Isaura. Ela ficou no processo terapêutico durante quatro anos.  Ninguém a reconheceria. Isaura mudou tanto! Outra pessoa. Arranjou um namorado que combina em tudo com ela. Feliz! “RI MUITO DO SORVETE NO PORTÃO. VIROU PIADA”!

_  ( Caso relatado por Mariza, terapeuta de Isaura).