MOCHILA DAS DEFESAS! ( DESPROTEGIDA).

Sonho recorrente:- Cilene Maria foi à uma festa. Lá havia muitos convidados. Alguns deles já bebericando e ouvindo músicas dos anos noventa. A festa estava apenas começando! Prometia animação. Cilene, distraída, num repente, se deu conta que tinha ido totalmente desnuda. Percebeu que segurava em sua mão esquerda uma mochila vermelha com a roupa da festa. Morrendo de vergonha, evitando ser vista  pelas pessoas, buscou rápida solução. Avistou uma toalha branca enrolada sob uma das mesas da sala onde se encontrava, sem pensar muito, imediatamente, enrolou-se nela tentando proteger-se de eventuais olhares indiscretos. Caminhou disfarçadamente pelos cantos do ambiente e foi procurar um lugar onde pudesse se vestir. Avistou um banheiro no fundo do corredor. Foi até lá. Percebeu que estava ocupado. Na urgência, não querendo mais ficar  exposta e correr o risco de cair no ridículo, andou em direção à uma porta que dava num quintal arborizado. Lá estavam sentadas num banco, encostado numa pitangueira florida, sua mãe Rebeca, elegantemente arrumada, e a tia  Maria, mulher muito simples que não combinava com aquele ambiente sofisticado.  Chamava atenção pela falta de adequação em sua vestimenta. Quando Cilene passou perto delas, ouviu a tia comentar sobre suas belas pernas expostas sob a toalha que a envolvia. Cilene, nem parou. Breve aceno, simplesmente. Continuou a buscar um lugar discreto para se vestir. Sentia-se extremamente ansiosa. Situação constrangedora. Queria se arrumar. Ficar bonita. Curtir a festa como tinha direito! Finalmente encontrou uma academia no fundo do quintal. Entrou acelerada. Coração disparado. Puxou o zíper da mochila. Emperrou! CILENE ACORDOU!

IINTERPRETAÇÃO: ( Sessão de psicoterapia).

O registro da história emocional de Cilene Maria, expressa fragilidade originada de intensas rejeições recorrentes de um ambiente familiar desestruturado. Filha única. Vítima de um pai ácido, exageradamente crítico e uma mãe submissa diante das situações conflitantes da vida. A atitude dessa família, construiu um clima educacional tóxico, prejudicando demasiadamente a filha em sua capacidade de expressão e equilíbrio emocional.  Exagerada repressão gerou em Cilene, inseguranças, dificuldades em lidar com o social e com as pessoas em geral. “Medo de se expor”! Medo de ser rejeitada. Potencialmente, Cilene Maria, é criativa, inteligente e sensível, mas, diante de tantos bloqueios vividos, desenvolveu defesas para se proteger da dor. Defesas que se transformaram vilãs em sua vida. (Auto sabotaram sua primeira natureza)! Desiquilibrou os seus polos energéticos. “Caminho inimigo da expressão equilibrada dos desejos genuínos”. Com o passar do tempo, sua mãe foi mudando sobre muitos aspectos, demonstrando ser mais segura e determinada. Atualmente, representa um bom modelo de mulher onde Cilene tenta se espelhar. Atrapalha-se nos papeis que tenta repetir. É comum ela entrar numa intensa ansiedade. O pai também mudou em suas atitudes egocêntricas e desrespeitosas para com Cilene. De vez em quando tem recaídas! Cilene Maria já consegue lidar melhor com ele! Sequelas inevitáveis decorrentes de tantas repressões estão presentes no dia-dia. Necessitam serem tratadas. Esse sonho recorrente  dessa moça reflete insistente necessidade de equilibrar a balança interna. (Integrar o racional com o emocional de forma saudável)l. Cilene buscou ajuda terapêutica. Quer se entender melhor.  suas neuroses insistentes. “Compreender a função de suas defesas”.  Perder o medo de ser feliz! ” ARRUMAR O ZÍPER DA MOCHILA VERMELHA E FAZER ESCOLHAS”!

ABORTOS CRUÉIS!( APERTO NO PEITO).

Realmente ele tinha razão! Sempre em nossas brigas, desde o namoro,  quando o ameaçava que iria  abandoná-lo, Sergio dizia meio que tirando sarro:- ” Vai. Você não aguenta um dia longe de mim, boneca!” Furiosa eu zombava de suas palavras, ridicularizando-o. Nunca admitiria ser emocionalmente dependente dele, mas, na realidade, era simbiótica mesmo. Respirava sua presença. Muita carência minha! Amava mais à ele que a mim mesma. Pensamentos e fantasias giravam em torno de Sergio. Paixão aguda! Parecia uma doença. Também, tinha minhas razões. Ele era um perfeito galinha camuflado. Discreto, mas galinha! Eu ciumenta assumida. Já tinha sido alertada por uma amiga sobre isso. Desde os tempos de faculdade ele era assim. As meninas sempre tinham um bom motivo pra falar com ele ao pé do ouvido. E o pior é que ele adorava. Eu sentia um misto de raiva e insegurança. Quatro anos assim. Angustias! Tempo passando. Formatura. Carreira. Muitas experiências. Amamos e sofremos. Crescemos juntos.  Brigas. Discussões inflamadas. Ele mais contido que eu, porém, quando o bicho pegava. Terremoto! (Amar e sofrer são condições emocionais que ficam registradas no inconsciente). Em meio à esse relacionamento tumultuado, de repente, a gravidez inesperada! Nossa! Ambivalência total em meu interno. Misto de alegria e medo. Conflito danado! Enfim. Assumimos. Fomos morar juntos. Adaptação à vida nova não foi fácil. Correria profissional de Sergio, junto a minha, acrescida à gravidez. Contas a pagar. Rotinas de um casamento. Ufa! Em meio à essa turbulência surgiu na carreira de Sergio, uma importante viagem profissional ao Japão. Depois de muita conversas, decidimos irmos juntos. “Sempre quis conhecer a magia daquele pais”. Fantasias minhas, não faltavam naquela arquitetura única. Nem questionei com meu obstetra, se havia algum risco para o bebê, estava me sentindo tão bem! Imaturidade minha. “Parecia que a viagem era mais importante que tudo”! Durante o voo, náuseas e vômitos me acometeram. Entrei em Pânico. Aflorou, insegurança descontrolada. Não via a hora de chegar em terra firme. Nunca pensei passar por tanto medo na vida! Suava frio. Tive assistência médica na aeronave de um médico a bordo. Medicou um calmante natural, no entanto, eu estava muito alterada. A gestação de quatro meses, tão tranquila se transformou em um imenso pesadelo! Assim que o avião pousou no aeroporto de Tokyo (Haneda), vieram fortes cólicas. Fiquei transtornada. Naquele momento senti o tamanho do medo de perder o meu bebê. (Insegura, num país tão distante). Fui direto para o hospital. Ainda bem que Sergio falava inglês. Os médicos explicaram que fizeram de tudo, mas, não deu jeito, o meu quadro piorou. Sofri um aborto. Doloroso demais. Chorei todas as lágrimas de uma vida. O mundo acabou para mim! Minha relação também. Não sei porque, passei a não conseguir olhar para a cara do Sergio. Acho que inconscientemente eu o culpava. Absurdo! Uma forma de fugir da culpa que assolava minha alma. No Japão, enquanto me recuperava numa clínica, Sergio mal conseguiu realizar o seu trabalho. Estávamos muito abalados. Voltamos calados para o Brasil. Não suportamos a dor. Afetou nosso equilíbrio emocional, profundamente. Sergio, ao contrário de mim, sabia sofrer calado! Era mestre nisso. Muito introspectivo. Rígido. Eu só chorava. Nesse clima depressivo, fui direto para a casa de minha mãe. Estava precisando de colo amigo. Confiança incondicional. Lá fiquei. Não consegui voltar para a companhia de Sergio. Sentimentos confusos e absolutamente enlouquecedores. As entranhas sangravam! Depois disso nos separamos. Após um ano, me vejo sozinha e ainda, amargurada. Saudade e culpa batem fortes. Saudade do filho que não conheci. Saudade do amor que perdi. Saudades de mim! Dos sonhos perdidos. O aborto despedaçou tudo que eu tinha construído em minha vida de mulher. Hoje, trinta e quatro anos de idade, me sinto frágil e com muitas dificuldades de recomeçar a vida. Pensei até em entrar num convento e abandonar o meu cargo de  secretaria executiva. Em meio à esse sofrimento, na última quinta feira, durante um café, conversando com uma cliente, Clarice, percebendo meu abatimento, com muito tato, sugeriu uma psicoterapeuta, que segundo ela seria capaz de me ajudar. Surgiu enfim, um ponto de luz. Quem sabe! Quero limpar sequelas de um aborto físico e emocional que ficaram impregnadas em meu eu. “POR ISSO ESTOU AQUI”!

Relato de Sandra Albuquerque, em sua entrevista  no consultório de Ana Beatriz, psicoterapeuta especializada em Reich.

ESSA É A MINHA CARA! (SOMA DE MIM MESMA).

Sou a soma de tudo que vivi e senti. Fantasias cabíveis. Outras descabidas. Sonhos Prazerosos. Também dolorosos! Por um longo período, fui alvo ingênuo, desavisada de, hipócritas e mercenários emocionais! Terríveis hipócritas! Quase fui transformada em fantoche. Não tinha discernimento mental para elaborar tamanha invasão a minha identidade frágil, naqueles momentos. Sou também o saldo de uma família simples, amorosa, porém, recheada de conflitos. Pai e mãe responsáveis pela maioria deles. Imaturos emocionais, com imensas dificuldades de enfrentar as encrencas que a vida apresentava nos vários níveis. “Filhos são vítimas diretas de famílias desestruturadas”. (Recebi esse presente, rs)! Ao mesmo tempo sou saldo também de uma adolescência energética, cheia de hormônios e tesão pela vida. Muito estudo e muita brincadeira naquela fase. Momento libertador! Da criança vítima nasceu uma adolescente guerreira. Vontade enorme de viver. Paqueras, amizades e planos para o futuro. Também fui vítima de ansiedade e suas consequências nefastas. Crise de pânico interferindo em meu caminho, logo após a adolescência. Momento difícil de administrar. Não permiti que isso bloqueasse meus desejos, a minha garra. Lutei bravamente! Venci! A partir daí vislumbrei um mundo aberto. Atitude nova diante da vida! Enfrentei decepções e dores naturais pelas quais todo ser humano passa. Superei. Mal sabia que o destino me reservara momentos felizes e intensos. Incontáveis! Encontrei um grande amor! Pulsação de vida inigualável. Não bastasse, logo em seguida, formatura em psicologia, depois de longos cinco anos de muito estudo. “Amor e profissão fortaleceram a minha identidade”. Pós graduação em psicanálise e Reich. Uf! Super valeu a pena. Realização profissional acontecendo e uma grande integração com o meu interior foi surgindo. Cresci! Em meio à essa intensidade de vida, fui nomeada por Deus a ser mãe. Quatro vezes. Divino. Plenitude! O tempo foi passando sem que eu notasse. Filhos crescendo. Muitos congressos. Clínica cheia. Concomitantemente, casamento passando por um buraco negro. Intensa crise! Não dava mais pra sustentar tantas diferenças de valores entre nós! Entendi que poderia romper, (caminho rápido e mais doloroso) ou enfrentar. “Tentar aproveitar a crise amadurecendo a relação”. Grande conflito! Fui espiar lá no fundo do coração. Assustada e surpresa encontrei o amor abandonado, envolto por camadas espessas, de raivas e ressentimentos. Estremeci. Chorei. Mobilizada resolvi tentar desfazer nós! Um por um. “Trabalho delicado, desbloquear afetos e amores”! Precisava salvar o Amor da U. T. I. Não queria fazer eutanásia do meu casamento! Antigo guru, terapeuta, profissional experiente, ajudou muito nesse  processo. Recasei! Fui tentar novamente com uma nova consciência. Senti que valeria a pena tentar. Durante todo esse caminho de vida, aprendi a cuidar e integrar mente-corpo. Minhas percepções ficaram refinadas e sutis. Virei vegetariana, recusando-me comer qualquer tipo de carne. Canalizei intensões e pensamentos para a meditação, no intuito de iluminar a alma. “Cuidei da espiritualidade”. Ser coerente com o meu “Eu” essa era a meta! Por outro lado, conviver com alguns traços psicopatas de meu companheiro me ensinou a lidar melhor com o mundo. Tive que enfrentar demônios mascarados de Anjos. Aprendi que  nas perdas pode-se obter grandes ganhos. Intensidade é o resumo das histórias que vivi. Hoje, quando me olho no espelho, sou grata por tudo que vivi.  Aguardo o tempo que virá! Consciência expandida. Respeito, empatia e generosidade fazem parte do meu mantra. Não permitirei invasões à minha identidade. Gosto do que faço e penso. O que mais me encanta é o brilho em meu olhar. ” SINTO QUE ELE REFLETE A MINHA ALMA”!

Patrícia Guimarães, realizou em sua clínica, com sucesso, por longo tempo,  trabalho consistente com “GRUPO DE MULHERES”, ajudando na expansão da consciência e desenvolvimento da identidade feminina.

CAIPIRINHA SICILIANA! ( SABOR FELICIDADE).

Sou Carol, natural de São Paulo, caminhando sozinha pelo centro de Paris. Sem rumo certo. Apenas caminhando! Assim como uma criança explorando ambiente novo. Sons de vozes numa língua diferente vão ocupando meus sentidos. Vento ameno de primavera sobre a pele! Refrescante. Muita gente andando pelas calçadas. Passos rápidos. Passos mais lentos. Muitos turistas. Mesas dos restaurantes e barzinhos do quarteirão, esparramadas pelas largas calçadas. Muitas delas lotadas de pessoas, bebericando, rindo, falando alto. Drinks coloridos! Convidativos, estimulando meus desejos. Essa é a primeira vez que venho a Paris. Me sinto nas nuvens! Distraída. De repente alguém esbarra em mim. Abruptamente! Levanto os olhos. Dou de cara com o sorriso mais maroto que já vi, pedindo desculpas em inglês, “sorry”! Na mente, a imagem do amor que deixei no Brasil. “Aquele mesmo sorriso”! Um arrepio na espinha! Bateu saudade enorme de um passado recente. Coração dispara. Respiro fundo. Solto o ar lentamente. Decido: não!  Não quero esses pensamentos. Agora não! Acelero os passos. Fujo das lembranças. Foco a paisagem. Árvores frondosas em alguns pontos da avenida me chamam a atenção. Flores vermelhas penduradas nos galhos, contraste lindo com o verde escuro das folhas, colorindo a tarde em Paris. Cheiro agridoce no ar. Mistura dos aromas de flores dos canteiros da alameda com cheiro de pipocas e sorvetes. Afasto da mente qualquer sensação dolorosa que estrague esse momento. Aprendi a me defender da dor mudando rumos mentais. Tenho que me fortalecer. Afinal, foi minha a decisão de vir morar em Paris. Tive que fazer a escolha mais difícil da vida. Desatar laços. Largar um grande amor. “Amor simbiótico”! Impedia que eu vivesse meus sonhos pessoais! “João era como um doce morcego!”. A gente se divertia muito. Havia muito tesão e planos de um casamento surreal; no entanto, me sentia sugada naquela relação. Minha identidade estava sufocada. Não passava pela cabeça dele que eu quisesse me desenvolver profissionalmente. Ele queria ser o meu único projeto de vida. Como se só ele me bastasse! Por uns tempos funcionou. Com o passar dos anos surgiu uma enorme ânsia em mudar rumos. Fazer pós graduação na universidade de Sorbonne na área de  humanas, era um dos meus desejos. Não resisti! Sei que terei que lidar com grandes conflitos. Existe uma parte minha muito envolvida com o João. Dependente. Ele seduzia o tempo todo o meu coração carente. Terei que me adaptar com sua ausência. Sentirei muito sua falta, sei bem disso! Até porque por muitos anos me adaptei ao meu sequestrador! Acordei meio zonza no meio dessa história. O seu lado voluntarioso e mandão só me enxergava como um enfeite. Negava qualquer cumplicidade em outras áreas da sua vida. “Não posso sabotar minha identidade de mulher por nenhum homem”. Gaiola de ouro, não! Meus desejos de crescer estavam presos nessa gaiola. Sentia um vazio que nenhum mimo do João preenchia mais. Num segundo, caminhando lentamente, percebo como nossos pensamentos nos traem. Sem me dar conta estava pensando no João, de novo. Volto ao racional. Refaço emoções dentro do peito. Acelero os passos. Sem rumo. Apenas explorando o cenário e adestrando os  sentidos. Tentando uma integração! Quero sentir os sabores da decisão que tomei com equilíbrio mental. Certa angústia misturada com prazer insiste dentro do peito. “Renascer é tão dolorido quanto o próprio nascimento”! Sei que a dor faz parte desse momento emocional que estou atravessando! É natural. Emoções antigas e atuais, ora adoçando, ora azedando! Garganta seca. Avisto do outro lado da rua uma sorveteria colorida me convidando a parar. Decidida vou até lá. Meu francês é precário. Resolvo falar em inglês:- Please,  a lemon ice cream? How much does it cost? Assim que me fiz entender, acertei no caixa o que devia e recebo o meu picolé refrescante. Salivo de tanta vontade. Sento-me numa das mesinhas vagas. Um vento mais geladinho me arrepia todinha! Vou lambendo pelas bordas do sorvete pra não derreter. Na boca um gostinho delicioso do limão siciliano! Dou uma pausa entre uma lambida e outra, deixando os sentidos ancorados nesse sabor afrodisíaco. Por segundos me transporto a fantasias alimentadas há anos. Morar em Paris e ter um amor francês! Parece um sonho. Eu aqui, finalmente. Liberdade sonhada. Busquei tanto! Precisou de uma motivação profissional irrecusável para tomar essa decisão. “Como é difícil abrir a porta da gaiola!!” Tantas dúvidas! Ambivalência. Medos misturados implodem o coração. Uf! Em meio a esse conflito dou outra lambida no sorvete quase derretido. Me lambuzo. Limpo a boca no guardanapo vermelho que está sobre a mesa. Levanto-me. Dou uma última olhada conferindo a beleza local. Saio dali. Novos pensamentos alimentando o meu ego. Vontade de tomar uma caipirinha com limão siciliano. Retomo o caminhar. Passos seguros. Firmes. Rumo ao futuro. Mais uma vez, inspiro fundo. Bem fundo! Na mente um cartaz em lilás com letras fortes e claras:- Sim. Estou feliz. “QUE VENHA A PRIMAVERA”!

TRATANDO AS FERIDAS! (VIAGEM NECESSÁRIA).

Manuel Ricardo, quando criança, ouvia sempre de seu pai Eduardo, a expressão: -“Quanto mais verdadeiro você for, menos amigos terá”! Manuel, tão criança, não compreendia muito bem o que ele queria dizer com isso. Como também não entendia tantas outras atitudes repressoras vindas dele, tolhendo sua forma espontânea de ser. ” Menino não chora”! ” Cala a boca, retardado”! “Você não presta pra nada”! No entanto, intercalando com essas absurdas formas de se tratar um filho, também tinha  gestos de carinho e atenção, levando-o muitas vezes a cinemas, parques e viagens curtas à praia. Naqueles momentos eram felizes!  Outro aspecto importante era o orgulho que  Manuel Ricardo sentia pelo pai. Isso fortalecia a imagem do pai diante dele.  Adorava observá-lo moldando esculturas e diversos objetos de madeira, como competente marceneiro que era. Um verdadeiro artista. (Seu herói e seu tirano). Manuel, como acontece com a maioria das  crianças, queria ser marceneiro quando crescesse. Ficava todo orgulhoso quando ouvia elogios sobre o seu genitor! (Não fosse o lado patológico do caráter desse pai, que, provavelmente, também foi vítima de intensa repressão, tudo poderia ter sido tão diferente)! Sua rigidez e desestrutura psicológica, bloqueou a capacidade de expressão saudável de Manuel Ricardo. Estabeleceu intenso desequilíbrio emocional que gerou muita dor ! Mulher e filho foram as vítimas mais próximas. Manuel  conviveu com esse pai “doente” até seus onze anos de idade. Enfarte fulminante levou-o dessa vida! Manuel Ricardo sofreu muito com a perda abrupta. “Ficou transtornado sem o seu espelho. Perdeu a única referência”. Mesmo sendo aquele modelo doente! Mais ou menos na mesma época, sua mãe Clarice, foi internada com Alzheimer. Mãe ausente. Sem identidade. Mulher frágil e confusa, com muitos problemas de saúde. Nunca conseguiu amar e cuidar do filho. Nem mesmo dela! “Família funcionando num intenso desequilíbrio psicoemocional”! Sequestrador e sequestrados unidos! O tirano, enquanto vivo, não os poupou de sua profunda neurose. Vítimas ideais! Sem pai e mãe, Manuel foi morar com a avó materna. Mulher simples, sensível e amorosa. Dentro de sua simplicidade acolheu o neto com carinho. (Esse menino sofreu um bocado com toda essa essa história familiar)! Marcou profundamente seu emocional. Na adolescência, problemas emocionais começaram a se intensificar. Não conseguia ocupar seu espaço de forma saudável na escola, ou em nenhum outro lugar. Grandes dificuldades em estabelecer vínculos e se expressar verbal e emocionalmente de forma estruturada. Desenvolveu gagueira, fato que o deixou mais inseguro ainda. (Baixa auto estima)! Não conseguia ser ele mesmo. Buscava responder às expectativas do outro, numa tentativa desesperada em ser aceito.  Como é natural, não percebia que esse comportamento o afastava cada vez mais de seu objetivo. (Péssima auto imagem). Na escola, alguns meninos da turma tiravam sarro de seu jeito. Outros aproveitavam de sua condição psíquica fragilizada, manipulando-o. Tirando proveitos. Ganhou o apelido de Zé Mané! “Maria vai com as outras”. O adolescente foi ficando cada vez mais inseguro e fechado nele mesmo. Desenvolveu asma. Intensas crises! (Fundo emocional). Não bastasse todo esse sofrimento, sua ansiedade evoluiu para sintomas de pânico. (Taquicardia, falta de ar, formigamento na face esquerda, claustrofobia, entre outros). A psicóloga da escola percebendo esse quadro, convocou uma reunião com a avó materna de Manuel e a coordenadora. Expôs a situação que o menino vinha enfrentando e a necessidade de urgente tratamento psicológico. Encaminhou-o a uma profissional especializada. Tereza Monjardin, psicóloga experiente e sensível está realizando um trabalho sutil e delicado. O objetivo é trazer à luz  a criança sufocada no peito de Manuel e reconstruir modelos internos, como referências positivas para um novo caminho. (Recuperá-los e integrá-los em seu momento de vida). Cuidar muito do eixo emocional e comportamental! Muito trabalho no contato com a realidade, em  identificar o lado bom de sua vida. Aceitar o que não dá pra ser mudado. Resgatar a capacidade de expressão. “MANUEL RICARDO ESTÁ APRENDENDO A TOCAR EM SEU PROPRIO CORAÇÃO COM O CARINHO E RESPEITO QUE LHE FOI NEGADO”!

BARULHO DENTRO DE MIM! (SAUDADE).

Sons e ruídos são sinais de movimento. A vida é barulhenta! Sons tem suas frequências. Podem variar em diferentes níveis. Do mais silencioso ao mais alto. Eles influenciam nosso equilíbrio! Nosso organismo tem seus sons próprios. O universo também. No universo, parece que o som mais alto vem de fusões de buracos negros, sons em ondas gravitacionais. A terra tem seu zunido! Todos os seres vivos emitem seus ruídos. Internos. Externos. Silêncio pode ser prenúncio de morte. (Se você evita encarar o barulho do conflito para manter a paz, começa uma guerra dentro de si mesma). Guerra maltrata e mata! Acordei hoje azucrinada por um som intenso. Ameaçador. Altos decibéis disparando o coração ansioso. Parecia que ia implodir. Era um som só meu! Brigas intensas entre emoções. “Pandeiro forte machucando o peito”. Paixão vívida. Ruidosa. Insana! Que saudades meu Deus. Saudades de morrer! Som ressuscitando vida. Não aguento mais, amor. VOLTA PRA MIM!

BRAÇOS QUENTES E PELUDOS! ( ROTINA MENTAL DOENTIA).

Assim que se conheceram, Eleonora e Heitor viviam grudados. Todos comentavam que eram almas gêmeas. O namoro era uma festa! Ela de uma meiguice sem tamanho. Ele representava o papel do bom menino. Solícito, amável e prestativo no social. A mudança surgiu depois de algum tempo de casados. Heitor se transformou num homem grosseiro e agressivo. Desta forma passou a projetar sua intensa neurose camuflada.  Queria ser o soberano. O admirado! Ocupar todo o espaço. Suas palavras e decisões não podiam ser contestadas. Não respeitava Eleonora, sendo constantes suas agressões emocionais. (Agressão domestica). Heitor projetava todas os sentimentos ruins contidos, decorrentes da péssima relação que teve com a mãe. (Rejeições e frustrações). Quanto mais Eleonora expressasse compreensão e paciência, mais grosseiro Heitor ficava. Um inferno! Isso o fortalecia. (Muitas raivas contidas). Ele nunca tocou nesse assunto com a mãe. (Pacote fechado dentro do peito). Mulher rígida e esperta. Um gelo! Expressão felina. Fazia dele o que bem queria. Não enxergou o mal que causou ao filho. Incapaz de fazer um carinho. Só o estudo foi o  projeto de vida que reservou para ele. Ficou distante de Heitor durante anos, isolando-o num internato de padres. Ele chorou muito. Nunca a perdoou! Sofreu em silêncio. Garoto sensível e amoroso, desenvolveu um padrão de caráter rígido. Regredido emocionalmente. Intelectualmente diferenciado! Todos o admiravam. Eleonora nunca imaginou que esse seria o grande problema em seu casamento. Também, como podia uma menina moça como ela pressupor consequências de todo esse pacote em sua vida? Eles se davam tão bem! Na cabeça dela só rolavam fantasias e sonhos. Vivia intensamente a mágica paixão por aqueles olhos verdes. Era como um Deus para ela. Encarar o lado oculto do comportamento doentio de Heitor foi sofrido demais. Sentiu-se traída! Ele não era a pessoa com quem havia se casado. “Injusto a vida fazer isso com uma sonhadora!¨. Fazia tudo que uma mulher podia fazer para tentar ser feliz com ele. Deletou dívidas emocionais acumuladas. Longas dívidas! Perdoava sempre! De vez em quando pensava que as coisas podiam melhorar. Ela acreditava que ele não era aquele agressor barato. Naquele fim de ano ela estava feliz. Há duas semanas Heitor estava menos desequilibrado! Não tinham brigado. Até pensou em preparar um natal em grande estilo. Sentia-se leve. No entanto a realidade traiu novamente Eleonora. Na manhã de quinze de dezembro ela acordou bem cedo. Cantando. Preparou o desjejum costumeiro. Banana assada com aveia, queijo branco e um café bem fraco. Até torradas integrais! Do jeitinho que Heitor gostava. Saudável e natural. Tudo pronto. Lá fora, Eleonora teria um dia cheio de trabalho. Correria total. Sem tempo pra nada. Mesmo assim priorizou a relação. Dez minutos  junto dele, na manhã fresca, era um presente para ela. Eleonora foi até o escritório e chamou-o com carinho. Chocou-se com a reação estúpida e agressiva de Heitor. A leveza e o bom humor que Eleonora estava sentindo, até então, foram substituídas por uma carga de raiva intensa. Heitor falou rispidamente pra ela calar a boca e não atrapalhar a sua leitura. Essa reação despertou demônios internos nela. “Ofereceu flores e recebeu espinhos!¨. Muito irada, pensou em partir para o revide. Aquela atitude desequilibrada repentina de Heitor, transportou Eleonora a um lugar em que ela tinha  jurado não mais voltar! Violência emocional, não iria mais admitir. Eleonora sentia que estava traindo sua essência e dignidade! A resposta de Heitor foi como um raio caindo sobre a sua cabeça. E diante da insistência dela querendo contornar a situação, Heitor ainda completou:- “Para de encher o saco! Vai tomando o seu café!¨. Eleonora sentiu um aperto no peito. Pensou que estava enfartando. Seu corpo ficou todo dolorido dando sinais de que não admitiria mais que o tratassem assim. Como se ela tivesse levado uma surra! Estressada, cabeça confusa, pensou em dar um basta no casamento naquele mesmo instante. Foi tudo muito rápido. Num milésimo de segundo implodiram emoções absurdamente contidas. Ela se estranhou. De-repente um branco mental em Eleonora. “Foi como  uma pausa entre o sentir e o pensar”. Respirou fundo. Bem fundo! Lentamente foram surgindo em sua mente, cenas de historias tocantes vividas com Heitor. Recuperou sensações. “Parecia auto sabotagem!¨. Como num filme! Frio na barriga. Conflito! Vingança ou perdão? Sangue pulsando. Eleonora era uma irremediável apaixonada  por Heitor. “Atração de pele é um animal indomável”. Só em pensar nos braços quentes e peludos dele, envolvendo-a por inteiro, suas pernas bambeavam. Atiçavam desejos profanos. Primitivos. Gangorra emocional prevalecendo.  Ambivalência. Queria Heitor. Não queria Heitor! Dividida. Incapaz de se libertar. NOVAMENTE OS SENTIDOS IMPERARAM. A GOTA AINDA NÃO EXTRAPOLOU!

(Eleonora apresenta um quadro de dependência emocional. Identidade fragilizada. Auto estima e auto conhecimento poderão fortalece-la e ajudá-la. Psicoterapia é bem indicada).

BOCA DE BALEIA. ( RELACIONAMENTO ABUSIVO).

Maria Carolina, catarinense, alta e esguia. Porte orgulhoso e nobre que tenta manter diante das adversidades da vida. Criada a beira mar, adorava andar descalça nas areias macias das praias que frequentava. Uma ligação muito íntima com as águas. Sempre nadou como sereia. Nos dias de boas ondas pegava sua prancha e sumia no mar. Com a separação de seus pais, aprendeu a se defender sozinha das angústias que acometiam o seu coração. Foi difícil enfrentar essa nova realidade. Muita coisa mudou em seus dezessete anos de vida. As águas já não eram tão azuis! Amava seu pai. Modelo de homem. Imperfeito, perfeito! Identificava-se com ele.  Modelo desfeito como vapor dissipando-se no ar. Insegura e triste buscou desesperadamente novas referências. Nesse estado de extrema fragilidade, conheceu André Luiz. Personalidade semelhante à do pai ausente. Visual bonito. Determinado e inteligente. Sedutor. “Soube seduzir a sereia”! Num repente, para ela parecia que a vida estava colorida novamente. Transferiu para “Dezinho”, esse era seu apelido, toda sua carência e instabilidade emocional. Ele, com vinte e oito anos de idade, agia como um homem maduro e experiente. Aspectos que encantou ainda mais Maria Carolina.  Em seu interno houve uma substituição da figura paterna. (Começo do grande problema)! Sem se dar conta, entrou nessa relação com o papel de filha. (Teria que obedecer às regras de Dezinho). A mulher cheia de desejos e sonhos ficou escondida, bloqueada em seu interior. Sem identidade adulta. Relação iniciada fora dos padrões saudáveis entre um homem e uma mulher! Depois do encantamento a filha foi descobrindo o pai sem escrúpulo e sem respeito com quem tinha construído sonhos. Chocou-se. Já conhecia esse filme! A revelação deu-se pouco tempo depois de estarem vivendo sob um mesmo teto. Com traços psicopatas, André Luiz sabia muito bem fazer igual a um morcego (chupa o sangue e lambe). Subjugava Maria Carolina nos pequenos detalhes da vida rotineira de um casal. Desrespeitava sua companheira, na intimidade e publicamente. Apelidos pejorativos à sua imagem de mulher. Críticas ácidas e destrutivas constantemente. Sentia-se o dono dela. Detestava que ela reagisse com brigas ou lágrimas. Dizia, com voz ríspida ou sarcástica, que ela era chata e mal humorada. Uma criança chorona! Precisava virar mulher e saber ser feliz com ele. Depois, simplesmente, fechava o tempo! (Atitude recorrente). Esses episódios significavam apenas uma pitadinha dos momentos abusivos que aconteceram ao longo de seu relacionamento. Almoço em casa muitas vezes foram sinônimos de brigas e humilhações. André Luiz despejava gratuitamente suas neuroses  e traços patológicos de seu caráter sobre sua bela e insegura Maria Carolina. Esse sofrimento sufocado, aos poucos, a foi definhando. Emagreceu. Deprimiu. Foi perdendo vitalidade e alegria de viver. Nessa auto sabotagem, inconsciente, Ana Carolina não percebia a areia movediça em que estava atolada. Sentia-se muitas vezes a vilã da história. (Será que sou eu a errada?). As palavras de André Luiz, muitas  vezes, a convencia de ser a culpada pelo inferno emocional entre eles. “Duvidava dela mesma”! Assim foi transcorrendo o tempo e Maria Carolina resignando-se com o clima de desrespeito e humilhação. Adaptou-se naquela relação, destrutiva e invasiva, de uma forma patológica. O fato de não conseguir engravidar foi outro aspecto que a enchia de culpa e aumentava sua baixa auto estima. Passou a sentir-se incompetente sexualmente, como mulher. Noites e noites mal dormidas.  Não conseguia se desvencilhar desta prisão de dependência emocional e de auto- sabotagem. Passados seis anos nesse quadro doentio, surgiu uma viagem profissional de André Luiz ao exterior. “Momento transformador!” Maria Carolina resolveu ir em segredo visitar a avó materna que morava no sul. Desde que veio residir em São Paulo, não tinha mais voltado à Santa Catarina. Morria de saudades, mas não se permitia. Desta vez, resoluta, enfrentaria o seu medo. Encheu-se de coragem e foi matar  suas saudades. Respirar ares novos. Nem questionou de onde veio essa força. (Foi assim como um passarinho acostumado com a gaiola mas que não esquece como era voar).  Aproveitaria e mataria todas as saudades acumuladas e doloridas. “Mãe e avó moravam juntas há seis anos, desde o seu casamento”. Tinha noção de ter  evitado esse encontro por conflitos entre elas e André Luiz. Definitivamente ele não gostava delas. Nem elas dele. Evitavam piorar o casamento fragilizado de Ana. Comunicavam-se através de telefonemas oportunos, embora a  amassem muito.  André Luiz as considerava ignorantes e desniveladas. Maria Carolina se afastou da família tentando preservar o relacionamento já tão desgastado. Abriu mão de suas origens e afetos genuínos. Sentia-se ameaçada! (Síndrome do sequestrador e sequestrado)! Agora, com a chance da viagem prolongada de “Dezinho”, sentiu-se invadida por uma nova energia.  Resolveu ir passar um fim de semana. Talvez dar uma esticada maior.  Aproveitaria também pra matar saudades dos amigos de infância. Tão esquecidos! Especialmente Renatinho, com quem, nos bons tempos, viajava nas ondas do mar azul. Soube que ele estava solteiro ainda. No dia da viagem, acordou ansiosa. Feliz da vida. Tomou um banho e café rápido. Chamou um taxi. Chegou cedo ao aeroporto. Coração disparado. Há quanto tempo não se sentia tão leve! Durante o voo, sentiu-se literalmente nas nuvens. Assim que chegou em Florianópolis sensação  maravilhosa. Frio na barriga. Custou a acreditar. Prepararam uma festa surpresa. Não esperava por tanta alegria. Radiante. Reviveu emoções profundas registradas na alma. Tanta gente querida! Encantou-se. Especialmente com  Renatinho. Velho companheiro de tantas brincadeiras. Tornou-se um  rapaz forte. Porte atlético. Surfista profissional. O abraço entre eles selou um recomeço de algo que nunca deveria ter sido interrompido. Conversaram horas a fio. Mãos entrelaçadas. Nem disfarçavam a explosão de sentimentos emergidos. A paixão nasceu ali! O paraíso chegou. Maria Carolina não mais voltou à capital. Abandonou seu cárcere e o sequestrador. Quer surfar corajosamente nas ondas do amor próprio e auto respeito. Já entendeu que o tom das águas depende somente dela. Não admite mais ser engolida pela baleia assassina. Já sabe se proteger!

LAURO ! ( SOM NO SILÊNCIO).

Lauro está presente há uns bons anos em minha vida. Companheirão amado e fiel. Noutro dia, estava na sala, tranquila e focada, assistindo a uma reportagem especial que falava sobre a importância da educação na formação do caráter nas pessoas. Compenetrada, ouvia o  especialista explicar que o caráter é construído através de hábitos, orientações e relações que fazem parte da experiência individual. Ressaltava que  atitudes revelam uma pessoa. Traduz como ela funciona e que o período de cinco anos de idade  é fundamental na formação do caráter. Dizia também que essa fase se  estende até o começo da adolescência. Eu já tinha lido algo a respeito, mas, os detalhes estavam atualizando a minha curiosidade. O especialista falava de uma forma motivadora e fácil sobre o significado emocional das construções internas. (O assunto foi me interessando muito). Trouxe temas importantes da psicologia sobre o desenvolvimento do psiquismo humano, estimulando muito meu interesse em compreender como funcionam os bloqueios emocionais e a forma como se refletem na formação do caráter. Doutor Pedro, ressaltou a importância do contato afetivo e da expressão do amor dos pais em relação a criança e como esse aspecto poderá auxiliar  na construção de uma pessoa saudável e equilibrada. (Priorizar a qualidade do contato). Durante  pausa de quinze minutos, aproveitei e fui até a cozinha tomar um chá verde, bem quentinho. Caiu tão bem! Saboreando, sentei-me na cadeira de madeira entalhada, pertinho da janela. Inspirei o perfume dos jasmins. Delícia! Comecei a refletir sobre os assuntos pautados naquela reportagem. Emergiu em minha memoria a história de Eduarda, ex-aluna, muito querida, com sérios problemas emocionais. Lembrei- me de seus olhinhos tristes, pedintes. Suplicavam amor. “Cruel criança sofrer”! Queria vê-la feliz como seus colegas de classe. Doía muito perceber tanta angústia em seu olhar. Meu instinto protetor ficou aguçado. Fui me aproximando de Eduarda sutilmente. Queria conquistar sua confiança. Busquei contato com a família. Fiz tudo que pude! Eduarda fazia parte da primeira turminha com qual  eu tinha um compromisso serio, instruí-las e mostrar o quanto possível como a vida pode ser bela! Tornar-me professora foi um sonho desde criança. Assim que me formei em pedagogia já consegui essa primeira classe. Cheinha de lindos alunos entre cinco e seis anos de idade. Eu, repleta de sonhos. Apaixonada. Nem sentia o tempo passar enquanto estava com eles. Adorava lidar com aquelas energias cristalinas. Eram quinze alunos. Meninos e meninas. Ali, sentada, tomando meu chá na calma da noite, as informações transmitidos na reportagem trouxeram a presença de Eduarda muito viva em minha mente. Relacionei o que tinha entendido sobre os conceitos de psicologia com a história de carência afetiva da minha menina. Encaixava perfeitamente no caso dela, como  bloqueios emocionais comprometem a capacidade de expressão. Menina triste e delicada, sensível e muito carente. Dona de uma criatividade incrível. Sabia construir através de seus desenhos, historias fortes e simbólicas, com personagens singulares, porém, uma criança muito insegura. Fechada em si mesma! Não interagia com coleguinhas. Nas tarefas em grupo não participava. Preferia estar só em seu mundo imaginário. Anjo menina, que muito me  sensibilizou com sua delicadeza e fragilidade. Nasceu um carinho muito grande entre nós. “Minha criança interna identificou-se com Eduarda”. Eu era a única companhia com quem ela se expressava como se eu fosse sua fada madrinha. Demonstrava sentir-se acolhida e segura. Seus olhinhos quase negros, mostravam um brilho incomum sempre que estávamos próximas. Certo dia, um fato transformador mudou rumos. Envolvida com a criançada, bem na hora do lanche, enquanto todas corriam e brincavam, Notei Eduarda sozinha num cantinho do pátio. Cabisbaixa! Fui até ela apressadamente. Segurei suas mãozinhas um pouco frias e úmidas, e, face pálida. Esse quadro me preocupou.  Segurei-a no colo com ternura e apreensiva. Imediatamente chamei nosso medico de plantão. Depois da avaliação criteriosa, foi constatado que era um quadro apenas de fundo emocional. Muita ansiedade naquela criança! De certa forma fiquei mais tranquila. Resolvi chamar seus pais para uma reunião. Insisti que fossem eles próprios e não a babá como sua mãe propôs. ( Para ela babá representava a mãe em tudo). A carência daquela menina tocava demais! Busquei conhecer toda a história na intimidade de seu lar. Constatei que seu ambiente familiar era excessivamente frio e sem contato. “Pais ausentes”. Quem cuidava dela eram babás temporárias que viviam se revezando e sendo trocadas. Soube que a mãe de Eduarda não hesitava em despedir funcionárias por motivo banais. Nenhuma delas podia fazer qualquer comentário que fosse sobre  carência e necessidades de Eduarda. “Doutora Fernanda”, dava à filha todos os brinquedos que uma criança pensa ter. Materialmente não deixava faltar nada à filha. Em sua visão, babá teria que suprir qualquer necessidade da criança. ” Para isso era bem remunerada”. Rígida e prática, detestava mi mi mi! Dizia não ter tempo para resolver bobagens! Vivia enfronhada em sua promissora profissão de cirurgiã plástica. Congressos e muito trabalho hospitalar. Encontros a noite com amigos, ocupava o resto do tempo. Seu marido também cirurgião, acompanhava a mulher em tudo. Viviam como namorados! Normalmente quando chegavam em casa tarde da noite, Eduarda já dormia. (Fernanda nunca teve vocação para ser mãe). Casou-se com Celso, alguém igual a ela. A coordenação da escola, convocou uma reunião com os pais de Eduarda. Foi muito produtiva! Conseguimos derreter um pouco do gelo da “doutora Fernanda”. Pudemos até chamá-la de Fernanda! Mencionei situações e fatos ocorridos na escola que ela ignorava. Demonstrou surpresa. Certa indignação! Na cabeça dela aquilo era inusitado. Não podia ter acontecido! Não se considerava uma mãe negligente. Depois de longas conversas, nossa psicóloga sugeriu psicoterapia. Fernanda, surpreendentemente, resolveu tentar. Iniciou terapia familiar e individual. Foi o momento transformador na vida de Eduarda. O tempo passou. O ano escolar terminou. Fui notando mudanças sutis no comportamento de Eduarda. No ano seguinte já chegou sorridente e interagindo mais facilmente com as outras crianças. Mais viço no olhar. Acho que as coisas estão se reestruturando! Respirei aliviada. (Acredito cada vez mais num processo psicológico bem elaborado). “Caminho do auto conhecimento pode ser a cura dos males do coração”. No momento, sempre que Eduarda me encontra no pátio da escola, ganho um abraço tão quente! E seu beijo? Delícia de carinho. Envolvida nessas sensações, distraída, tomando o último gole de meu chá, ouço uma voz conhecida, estridente:- LOLITA, LOLITA. LORO QUER CAFÉ!

AMOR E PAIXÃO (CONFLITO).

Domingo. Saboreando uma taça de vinho tinto, na ampla  varanda de meu apartamento, frente ao mar. Raro momento, mesclado de prazer e saudade. Certa nostalgia no ambiente. Raios faiscando no horizonte e um mar violento como pano de fundo. Ondas gigantes. Assustadoras. Aqui, eu e meus pensamentos. Torturantes. Infiéis e traiçoeiros. Malditos pensamentos! Chegam sem serem convidados, abalando a aparente harmonia que insisto transparecer real. Coisas do meu racional. Tremendo rochedo que não deixa vazar quase nada do que sinto. Quase! Batida de maracujá consegue enfraquecer esse rochedo! Sozinho, sentado na poltrona verde musgo comprada há anos, poucas semanas antes do casamento. Em meio a correria do casório resolvi ir até Itatiba, cidadezinha próxima, onde havia ofertas de excelentes móveis. Assim que avistei aquela poltrona no canto da loja, logo de cara, me apaixonei. Verde foi sempre minha cor favorita. Tinha um design perfeito. Feliz, arrumei meu ninho, como um “bem te vi” apaixonado pelo canto em que iria morar, enfeitiçado por aquela pessoa que tinha encantado a minha vida tão profundamente. Quantas loucuras! Devaneios malucos. “Travessuras de crianças”. Quantas! Tudo tão perfeito. Dava medo de tanta felicidade; porém, o senhor tempo, poderoso e transformador, trouxe alterações. Com certeza, lições importantes, também. Temo que eu não tenha sido bom aluno. Os anos foram se passando. Do fogo, restou fumaça. Densa. Escura. Algumas vezes colorida. Não percebi que mudanças lentas, quase imperceptíveis, foram deixando buracos internos e um vazio angustiante no coração. Instinto de vida reagiu, fortemente, fundamental aos sentidos, na busca da sobrevivência. Faltava pulsação dentro de mim! Precisava sentir motivação pela vida. Foi então que inconscientemente acolhi uma nova pessoa em meu coração. Chegou, sem pedir licença. Ancorou-se. Foi construindo um mundo colorido que  nem lembrava mais existir. Nutriu tanto! Fortaleceu sentimentos anêmicos, quase falidos. Nova vontade de viver. Fui ancorando num quadro emocional ambivalente, cheio de altos e baixos. Muitas vezes o diafragma aperta exageradamente. Inspiro fundo e vou levando a vida sentada na mesma poltrona verde, onde bem-te-vis nem fazem mais questão de alimentar os antigos sonhos. Ao mesmo tempo, novas âncoras emocionais estimulando meus sentidos, trazendo vida e colorido. Culpa? Sempre! O mar sabe bem de minhas histórias. Sempre ouve meus queixumes apaixonados. Indecisos. Neste início de tarde, raios no céu turquesa, assustando pela beleza e força, tocaram meu fogo interno. Tão forte! Conseguiram desestabilizar a rígida estrutura psíquica que montei pra me enganar. Neste estado vulnerável, num repente, ouço uma voz companheira e amorosa, chamando:- AMOR, O ALMOÇO ESTÁ NA MESA!