LAURO ! ( SOM NO SILÊNCIO).

Lauro está presente há uns bons anos em minha vida. Companheirão amado e fiel. Noutro dia, estava na sala, tranquila e focada, assistindo a uma reportagem especial que falava sobre a importância da educação na formação do caráter nas pessoas e, consequências que podem advirem desta formação. Compenetrada ouvia o  especialista explicar que o caráter é construído através de hábitos, orientações e relações que fazem parte da experiência individual. Ele ressaltava que as atitudes revelam uma pessoa. Traduz como ela funciona e que o período de cinco anos de idade  é fundamental na formação do caráter, se estendendo até o começo da adolescência. O especialista falava de uma forma motivadora e fácil   sobre o significado emocional das construções internas. (O assunto foi me interessando muito). Trouxe temas importantes da psicologia sobre o desenvolvimento do psiquismo humano estimulando meu interesse em compreender como funcionam os bloqueios emocionais e a forma como se refletem na atitude de caráter. Ressaltou muito a importância do amor e do contato afetivo dos pais em relação a criança e como esse aspecto poderá auxiliar  na construção de uma pessoa saudável. (Priorizar a qualidade do contato). Durante  pausa de quinze minutos, aproveitei e fui tomar um chá verde, bem quentinho, na cozinha. Caiu tão bem! Saboreando, sentei-me na cadeira de madeira entalhada, pertinho da janela. Inspirei o perfume dos jasmins. Delícia! Comecei a refletir sobre os assuntos pautados naquela reportagem. Emergiu em minha memoria a história de Eduarda, ex-aluna, muito querida, com sérios problemas emocionais. Lembrei- me de seus olhinhos tristes, pedintes. Suplicavam amor. “Cruel criança sofrer”! Queria vê-la feliz como seus colegas de classe. Doía muito perceber tanta angústia em seu olhar. Meu instinto protetor ficou aguçado. Fui me aproximando de Eduarda sutilmente. Queria conquistar sua confiança. Busquei contato com a família. Fiz tudo que pude! Eduarda fazia parte da primeira turminha com qual  eu tinha um compromisso serio, instruí-las e mostrar o quanto possível como a vida pode ser bela! Tornar-me professora foi um sonho desde criança. Assim que me formei em pedagogia já consegui essa primeira classe. Cheinha de lindos alunos entre cinco e seis anos de idade. Eu, repleta de sonhos. Apaixonada. Nem sentia o tempo passar enquanto estava com eles. Adorava lidar com aquelas energias cristalinas. Eram quinze alunos. Meninos e meninas. Ali, sentada, tomando meu chá na calma da noite, as informações transmitidos na reportagem trouxeram a presença de Eduarda muito viva em minha mente. Relacionei o que tinha entendido sobre os conceitos de psicologia com a história de carência afetiva da minha menina. Encaixava perfeitamente no caso dela, como  bloqueios emocionais comprometem a capacidade de expressão. Menina triste e delicada, sensível e muito carente. Dona de uma criatividade incrível. Sabia construir através de seus desenhos, historias fortes e simbólicas, com personagens singulares, porém, uma criança muito insegura. Fechada em si mesma! Não interagia com coleguinhas. Nas tarefas em grupo não participava. Preferia estar só em seu mundo imaginário. Anjo menina, que muito me  sensibilizou com sua delicadeza e fragilidade. Nasceu um carinho muito grande entre nós. “Minha criança interna identificou-se com Eduarda”. Eu era a única companhia com quem ela se expressava como se eu fosse sua fada madrinha. Demonstrava sentir-se acolhida e segura. Seus olhinhos quase negros, mostravam um brilho incomum sempre que estávamos próximas. Certo dia, um fato transformador mudou rumos. Envolvida com a criançada, bem na hora do lanche, enquanto todas corriam e brincavam, Notei Eduarda sozinha num cantinho do pátio. Cabisbaixa! Fui até ela apressadamente. Segurei suas mãozinhas um pouco frias e úmidas, e, face pálida. Esse quadro me preocupou.  Segurei-a no colo com ternura e apreensiva. Imediatamente chamei nosso medico de plantão. Depois da avaliação criteriosa, foi constatado que era um quadro apenas de fundo emocional. Muita ansiedade naquela criança! De certa forma fiquei mais tranquila. Resolvi chamar seus pais para uma reunião. Insisti que fossem eles próprios e não a babá como sua mãe propôs. ( Para ela babá representava a mãe em tudo). A carência daquela menina tocava demais! Busquei conhecer toda a história na intimidade de seu lar. Constatei que seu ambiente familiar era excessivamente frio e sem contato. “Pais ausentes”. Quem cuidava dela eram babás temporárias que viviam se revezando e sendo trocadas. Soube que a mãe de Eduarda não hesitava em despedir funcionárias por motivo banais. Nenhuma delas podia fazer qualquer comentário que fosse sobre  carência e necessidades de Eduarda. “Doutora Fernanda”, dava à filha todos os brinquedos que uma criança pensa ter. Materialmente não deixava faltar nada à filha. Em sua visão, babá teria que suprir qualquer necessidade da criança. ” Para isso era bem remunerada”. Rígida e prática, detestava mi mi mi! Dizia não ter tempo para resolver bobagens! Vivia enfronhada em sua promissora profissão de cirurgiã plástica. Congressos e muito trabalho hospitalar. Encontros a noite com amigos, ocupava o resto do tempo. Seu marido também cirurgião, acompanhava a mulher em tudo. Viviam como namorados! Normalmente quando chegavam em casa tarde da noite, Eduarda já dormia. (Fernanda nunca teve vocação para ser mãe). Casou-se com Celso, alguém igual a ela. A coordenação da escola, convocou uma reunião com os pais de Eduarda. Foi muito produtiva! Conseguimos derreter um pouco do gelo da “doutora Fernanda”. Pudemos até chamá-la de Fernanda! Mencionei situações e fatos ocorridos na escola que ela ignorava. Demonstrou surpresa. Certa indignação! Na cabeça dela aquilo era inusitado. Não podia ter acontecido! Não se considerava uma mãe negligente. Depois de longas conversas, nossa psicóloga sugeriu psicoterapia. Fernanda, surpreendentemente, resolveu tentar. Iniciou terapia familiar e individual. Foi o momento transformador na vida de Eduarda. O tempo passou. O ano escolar terminou. Fui notando mudanças sutis no comportamento de Eduarda. No ano seguinte já chegou sorridente e interagindo mais facilmente com as outras crianças. Mais viço no olhar. Acho que as coisas estão se reestruturando! Respirei aliviada. (Acredito cada vez mais num processo psicológico bem elaborado). “Caminho do auto conhecimento pode ser a cura dos males do coração”. No momento, sempre que Eduarda me encontra no pátio da escola, ganho um abraço tão quente! E seu beijo? Delícia de carinho. Envolvida nessas sensações, distraída, tomando o último gole de meu chá, ouço uma voz conhecida, estridente:- LOLITA, LOLITA. LORO QUER CAFÉ!