Sou Carol, natural de São Paulo, caminhando sozinha pelo centro de Paris. Sem rumo certo. Apenas caminhando! Assim como uma criança explorando ambiente novo. Sons de vozes numa língua diferente vão ocupando meus sentidos. Vento ameno de primavera sobre a pele! Refrescante. Muita gente andando pelas calçadas. Passos rápidos. Passos mais lentos. Muitos turistas. Mesas dos restaurantes e barzinhos do quarteirão, esparramadas pelas largas calçadas. Muitas delas lotadas de pessoas, bebericando, rindo, falando alto. Drinks coloridos! Convidativos, estimulando meus desejos. Essa é a primeira vez que venho a Paris. Me sinto nas nuvens! Distraída. De repente alguém esbarra em mim. Abruptamente! Levanto os olhos. Dou de cara com o sorriso mais maroto que já vi, pedindo desculpas em inglês, “sorry”! Na mente, a imagem do amor que deixei no Brasil. “Aquele mesmo sorriso”! Um arrepio na espinha! Bateu saudade enorme de um passado recente. Coração dispara. Respiro fundo. Solto o ar lentamente. Decido: não! Não quero esses pensamentos. Agora não! Acelero os passos. Fujo das lembranças. Foco a paisagem. Árvores frondosas em alguns pontos da avenida me chamam a atenção. Flores vermelhas penduradas nos galhos, contraste lindo com o verde escuro das folhas, colorindo a tarde em Paris. Cheiro agridoce no ar. Mistura dos aromas de flores dos canteiros da alameda com cheiro de pipocas e sorvetes. Afasto da mente qualquer sensação dolorosa que estrague esse momento. Aprendi a me defender da dor mudando rumos mentais. Tenho que me fortalecer. Afinal, foi minha a decisão de vir morar em Paris. Tive que fazer a escolha mais difícil da vida. Desatar laços. Largar um grande amor. “Amor simbiótico”! Impedia que eu vivesse meus sonhos pessoais! “João era como um doce morcego!”. A gente se divertia muito. Havia muito tesão e planos de um casamento surreal; no entanto, me sentia sugada naquela relação. Minha identidade estava sufocada. Não passava pela cabeça dele que eu quisesse me desenvolver profissionalmente. Ele queria ser o meu único projeto de vida. Como se só ele me bastasse! Por uns tempos funcionou. Com o passar dos anos surgiu uma enorme ânsia em mudar rumos. Fazer pós graduação na universidade de Sorbonne na área de humanas, era um dos meus desejos. Não resisti! Sei que terei que lidar com grandes conflitos. Existe uma parte minha muito envolvida com o João. Dependente. Ele seduzia o tempo todo o meu coração carente. Terei que me adaptar com sua ausência. Sentirei muito sua falta, sei bem disso! Até porque por muitos anos me adaptei ao meu sequestrador! Acordei meio zonza no meio dessa história. O seu lado voluntarioso e mandão só me enxergava como um enfeite. Negava qualquer cumplicidade em outras áreas da sua vida. “Não posso sabotar minha identidade de mulher por nenhum homem”. Gaiola de ouro, não! Meus desejos de crescer estavam presos nessa gaiola. Sentia um vazio que nenhum mimo do João preenchia mais. Num segundo, caminhando lentamente, percebo como nossos pensamentos nos traem. Sem me dar conta estava pensando no João, de novo. Volto ao racional. Refaço emoções dentro do peito. Acelero os passos. Sem rumo. Apenas explorando o cenário e adestrando os sentidos. Tentando uma integração! Quero sentir os sabores da decisão que tomei com equilíbrio mental. Certa angústia misturada com prazer insiste dentro do peito. “Renascer é tão dolorido quanto o próprio nascimento”! Sei que a dor faz parte desse momento emocional que estou atravessando! É natural. Emoções antigas e atuais, ora adoçando, ora azedando! Garganta seca. Avisto do outro lado da rua uma sorveteria colorida me convidando a parar. Decidida vou até lá. Meu francês é precário. Resolvo falar em inglês:- Please, a lemon ice cream? How much does it cost? Assim que me fiz entender, acertei no caixa o que devia e recebo o meu picolé refrescante. Salivo de tanta vontade. Sento-me numa das mesinhas vagas. Um vento mais geladinho me arrepia todinha! Vou lambendo pelas bordas do sorvete pra não derreter. Na boca um gostinho delicioso do limão siciliano! Dou uma pausa entre uma lambida e outra, deixando os sentidos ancorados nesse sabor afrodisíaco. Por segundos me transporto a fantasias alimentadas há anos. Morar em Paris e ter um amor francês! Parece um sonho. Eu aqui, finalmente. Liberdade sonhada. Busquei tanto! Precisou de uma motivação profissional irrecusável para tomar essa decisão. “Como é difícil abrir a porta da gaiola!!” Tantas dúvidas! Ambivalência. Medos misturados implodem o coração. Uf! Em meio a esse conflito dou outra lambida no sorvete quase derretido. Me lambuzo. Limpo a boca no guardanapo vermelho que está sobre a mesa. Levanto-me. Dou uma última olhada conferindo a beleza local. Saio dali. Novos pensamentos alimentando o meu ego. Vontade de tomar uma caipirinha com limão siciliano. Retomo o caminhar. Passos seguros. Firmes. Rumo ao futuro. Mais uma vez, inspiro fundo. Bem fundo! Na mente um cartaz em lilás com letras fortes e claras:- Sim. Estou feliz. “QUE VENHA A PRIMAVERA”!
Mês: fevereiro 2022
TRATANDO AS FERIDAS! (VIAGEM NECESSÁRIA).
Manuel Ricardo, quando criança, ouvia sempre de Eduardo, seu pai, a expressão: -“Quanto mais verdadeiro você for, menos amigos terá”!(Eduardo homem amargo, fruto de pais extremamente rígidos e críticos). Manuel, tão criança, não compreendia muito bem o que seu pai queria dizer com isso, como também, não entendia tantas outras atitudes repressoras vindas dele, impedindo sua forma espontânea de ser. ” Menino não chora”! ” Cala a boca, retardado”! “Você não presta pra nada”! No entanto, esse mesmo pai, apesar dessas absurdas formas de se tratar um filho, também tinha gestos de carinho e atenção. Ás vezes, o levava à cinemas, parques e até rápidas viagens à praia. Para Manuel aquilo era o céu. Naqueles momentos eram felizes! Outro aspecto importante era o orgulho que Manuel Ricardo sentia por ser filho de Eduardo. Adorava observá-lo moldar esculturas e diversos objetos de madeira, como competente marceneiro que era. Um artista artista e tanto! ( Herói e tirano em sua vida). Manuel ficava todo orgulhoso quando ouvia elogios sobre o seu ídolo. No entanto, prevaleceu na relação entre eles, a forma abusiva que o pai o tratava. Não fosse o lado patológico do caráter desse pai, tudo poderia ter sido muito diferente! Sua rigidez e desestrutura psicológica, bloqueou a capacidade de expressão e espontaneidade de Manuel, gerando intenso desequilíbrio emocional, dor e insegurança em seu filho. A mulher de Eduardo e seu filho Manuel, foram as vítimas mais próximas de seu desiquilíbrio. Mãe e filho submissos aos surtos neuróticos de um homem desiquilibrado e regredido. Manuel conviveu com esse pai “doente” até seus onze anos de idade. Enfarte fulminante levou-o dessa vida! Manuel Ricardo sofreu muito, com a Perda abrupta. “Ficou transtornado sem o seu espelho e referência”. Criança que era, não sentia que o pai era um modelo doente! Mais ou menos na mesma época em que o pai morreu, sua mãe Clarice, foi internada com Alzheimer. Mãe sem identidade. Mulher frágil, confusa, com muitos problemas de saúde. Nunca conseguiu amar e cuidar do filho. Nem dela, mesmo. Família funcionava num intenso desequilíbrio emocional. Sequestrador e sequestrados unidos! Pai tirano, enquanto vivo, não poupou a família de sua profunda neurose. Sem pai e nem mãe, Manuel foi morar com a avó materna. Mulher simples, sensível e amorosa. Dentro de sua simplicidade acolheu o neto. Na adolescência, sérios problemas emocionais começaram a surgir na vida de Manuel. Muitas dificuldades em ocupar seu espaço na escola e na vida social. Dificuldades em estabelecer vínculos e se expressar de forma estruturada e equilibrada. Muito ansioso, desenvolveu gagueira, que o deixou mais inseguro ainda e com baixa auto estima. Não conseguia ser ele mesmo nos ambientes que frequentava, Buscando responder às expectativas do outro, na tentativa desesperada em ser aceito. Não entendia que esse comportamento o afastava cada vez mais de seu objetivo. Sua auto imagem foi se deteriorando cada vez mai. Na escola, alguns meninos da turma tiravam sarro de seu jeito. Outros aproveitavam de sua condição psíquica fragilizada, manipulando-o. Tirando proveitos. Ganhou o apelido de Zé Mané! “Maria vai com as outras”. O adolescente Manuel, foi ficando cada vez mais inseguro e fechado nele mesmo. Desenvolveu asma. Intensas crises. Não bastasse todo esse sofrimento, sua ansiedade evoluiu para sintomas de pânico. (Taquicardia, falta de ar, formigamento na face esquerda, claustrofobia, entre outros). A psicóloga da escola percebendo esse quadro, convocou uma reunião com a avó materna de Manuel e a coordenadora. Expôs a situação que o menino vinha enfrentando e a necessidade de urgente tratamento psicológico. Encaminhou-o a uma profissional especializada. Tereza Monjardin, psicóloga experiente e sensível foi realizando um trabalho sutil e delicado, buscando trazer à luz a criança sufocada no peito de Manuel e reconstruir modelos internos, Referências positivas para um novo caminho, e integrá-los em seu momento de vida. Cuidando muito do eixo emocional e comportamental! Muito trabalho focado no contato com a realidade e identificar o lado bom de sua vida. Aceitar o que não dá pra ser mudado. Resgatar a capacidade de expressão. “MANUEL RICARDO ESTÁ APRENDENDO A TOCAR EM SEU PROPRIO CORAÇÃO COM O CARINHO E RESPEITO QUE LHE FOI NEGADO”!