“SORVETE NO PORTÃO”! ( CARÊNCIA/ INSEGURANÇA).

Isaura. Doce Isaura. Quando criança suportou muito preconceito pelo seu jeito diferente de ser. Sofreu o diabo! Nasceu mais introspectiva, é certo, porém, o ambiente familiar contribuiu muito para intensificar características de insegura e fragilidade. Filha de pais ausentes, além disso, sofreu consequências de ser o “sanduíche” entre duas irmãs extremamente competitivas, indiferentes à sua meiguice e intensa sensibilidade. Pareciam dois tratores quando o tema era ocupar espaço! “Engoliam como jiboia a identidade da menina”. Isaura não tinha recursos internos para reagir. Esse quadro recorrente foi desenvolvendo em Isaura intensa carência e dificuldades de expressões genuínas. Chegando à idade escolar, inevitavelmente, levou esse pesado pacote emocional para dentro da sala de aula. Seus pais, inadvertidamente, envolvidos tão somente com o profissional e com o próprio casamento desestruturado. Cheio de brigas e agressões verbais. Não percebiam a  angústia velada da filha. Deixaram de desempenhar suas funções como genitores equilibrados e responsáveis. Não  cuidaram da família que construíram. Sua mãe, Maria, acordou pra realidade só depois do difícil divórcio e tentou do melhor jeito que conseguiu resolver a situação. “O mal já estava feito!”.  Buraco emocional instalado, principalmente, no peito da sensível Isaura. Maria esteve cega! Por longos anos não enxergou a realidade que estava bem embaixo de seu nariz. Faltou consciência. Maturidade. Integração! Encarar de frente problemas relacionais nutridos dentro de casa. Cuidar da estrutura emocional da família. Parte fundamental no papel dos pais! Quando se conscientizou, sofreu muito. Sentiu-se extremamente culpada. Nessa altura já estava separada do marido racional e déspota que teve a infelicidade de escolher como  pai de suas filhas. Quando se livrou desse homem, amadureceu. Começou olhar ao redor. Ocupar sua função de genitora. Passou a batalhar o quanto pode pra resgatar o tempo perdido e ser um bom modelo de mulher e mãe. Ver principalmente a filha Isaura socialmente inserida e feliz. Também, desenvolver maior contato com suas duas outras filhas e melhorar as relações entre as irmãs e com ela própria. Esse objetivo passou a ser sua meta. Lutou! Muitas vezes foi nocauteada. Nunca desistiu. Quando percebia o sofrimento de Isaura na escola por não conseguir se enturmar e as dificuldades em acompanhar pedagogicamente a turma, Maria se descabelava. Agora a briga era dela! Resolveu que precisava estar presente no dia dia. Exagerou! Tentava compensar a fragilidade da filha superprotegendo-a, sem perceber que essa atitude deixava a menina mais insegura ainda. Alguns maldosos rotulavam Isaura com apelidos pejorativos. “Esquisita” era o apelido mais suave! Nesse meio emocional de rejeição, Isaura intensificava sua contenção e atitudes desastrosas. Concomitantemente, como é natural, foi desenvolvendo cada vez mais, necessidade de ser aceita e admirada. Sem percepção de tempo e espaço, tentava agradar às pessoas absurdamente. Numa tentativa inocente em se sentir aceita, tornou-se muito tagarela. Valia qualquer assunto.  Comentários fora dos contextos é o que mais fazia. Motivo de crescentes indiferenças e rejeições. Chacotas camufladas aconteciam! Sua verdadeira identidade cada vez mais sufocada.  Comportamento inadequado, funcionava como uma bola de neve, só crescia. Certa vez, Antônia, amiga comum de suas irmãs, foi fazer uma visita a elas. Quando essa amiga chegou, assim que apertou a campainha, Isaura em sua extrema carência e ansiedade correu ao congelador, pegou um delicioso sorvete de morango e foi depressa receber Antônia. Sorrindo, abriu o portão segurando o geladinho. Ali mesmo, sem esperar que a amiga entrasse, insistiu que ela pegasse e provasse o sorvete! Antônia meio sem graça, constrangida, estranhou. Não sabia se aceitava ou não. Deu uma desculpa qualquer deixando para depois. As irmãs presenciaram  a cena e começaram a gozar de Isaura. Esse fato foi um importante divisor de águas em sua vida emocional. “Sorvete no portão”! Expressão que se tornou gozação. A partir dai, toda vez que se falasse no tema “carência”, esse termo passou a ser usado pelas irmãs como referência de extrema carência. “Olha o sorvete no portão “! Maria, sua mãe, depois de intensa crise no casamento, já separada, arranjou  tempo para  olhar e acolher suas filhas tão esquecidas por ela! Queria resgatar o tempo perdido. Percebeu a extrema carência de Isaura. Conversou muito com a filha. Aqueceu a relação entre elas. Tentou obter de Isaura sentimentos não expressos, guardados lá no fundo do coração. Foi difícil a aproximação. Paulatinamente, Isaura foi cedendo. Maria fez o possível! Investigou como uma boa mãe deve fazer as histórias e queixas de rejeição sofrida por Isaura. Não censurou. Não julgou. Apenas acolheu com o coração. Conseguiu falar de carinho e amor. Pela primeira vez em seus treze anos de idade, Isaura sentiu a mãe próxima e afetuosa. Conversaram muito. Longas conversas! Por estar adolescendo, Isaura  estava com maior percepção de sua dificuldades emocionais, conseguindo reconhecer sua ansiedade em agradar as pessoas e as atitudes errôneas que usava pra isso. “Não conseguia agir naturalmente”. Falou que detestou a gozação das irmãs e a reação da amiga Antônia. ‘Esse fato  acionou sentimentos calados pelo tempo”. Maria, atenta, achou que seria um bom momento para Isaura iniciar um processo em psicoterapia. Decidiu que buscar organizar o psicológico de Isaura seria essencial naquele momento. Resgatar sua identidade. Sorte que encontrou Mariza. Psicóloga sensível, amadurecida e experiente. Soube desenvolver uma relação de confiança e aceitação  com Isaura. Ela ficou no processo terapêutico durante quatro anos.  Ninguém a reconheceria. Isaura mudou tanto! Outra pessoa. Arranjou um namorado que combina em tudo com ela. Feliz! “RI MUITO DO SORVETE NO PORTÃO. VIROU PIADA”!

_  ( Caso relatado por Mariza, terapeuta de Isaura).

EU E MEUS VÁRIOS EUS! ( ASPECTOS INTERNOS).

Nasci assim: questionadora e rebelde. Faço as coisas do meu jeito. Não preciso de sua opinião. Nem da opinião de ninguém! Sou lá do interior da Bahia. Quando pequena dei muito trabalho. Minha mãe, que Deus a tenha, só não endoideceu porque já tinha um bocado de loucura própria. Até quiseram interná-la. Coitada. Também não era pra isso! Hoje eu entendo minha mãe. Suportar tanta amargura! Vida miserável. Tão sufocada pelo senhor meu pai. Cabra insensível. Casca de crocodilo é o que ele era. A válvula de escape dela foi o desequilíbrio mesmo! Daí, quando eu fazia as minhas traquinagens danadas, era a gota d’agua. É isso. Hoje compreendo minha mãe. De vez em quando eu mesma achava que tinha extrapolado. Até apanhar de chinelo, já apanhei. Com nove anos de idade queria entender coisas que os adultos não me contavam. Ouvia “quando crescer vai entender. Você ainda é uma criança.”. Eu ficava muito brava. Pensava que, se tinha brotado esse interesse em mim, é porque já era hora de saber, ué! Muitas vezes, queria entender porque a vida num dia parece maravilhosa e noutro tão chata! Porque existimos? Respostas vazias me deixavam mais questionadora ainda. Isso aborrecia os adultos, principalmente minha mãe. Ela não tinha muita paciência, não! Por muito pouco já gritava. Mandava eu calar a boca. Eu não desistia. Sempre arranjava um jeito de satisfazer o meu espírito curioso. Na escola fui uma aluna rebelde. Não gostava de estudar. Buscava só o prazer imediato. Queria viver os aspectos fantasiados dos meus sonhos criativos. Não sossegava. Fui Princesa. Rainha. Algumas vezes fui bruxa! Fui Deus colorido. Fui até borboleta em cima de uma cerejeira. Voava pelos canteiros ensolarados. As flores? Eram minhas amiguinhas. Crescendo, troquei essas fantasias pelo doce sabor do mel. Beijos, abraços e muito sexo. Nossa! Ficou sendo o meu ponto forte. Maluquice. Os hormônios enlouquecem! Só vivia isso. Só queria o doce sabor do mel! Fiquei compulsiva. “Compulsiva sexual”. Pode? Com o transcorrer  dos anos fui piorando. Eu me degradando! Qualquer um servia. Não queria o mesmo homem. Precisava variar. Diversos temperos! Chegou num momento da vida que comecei a sentir auto repulsa. Mesmo assim continuei com esse comportamento compulsivo. Essa briga interna tomou tamanho gigante. “Conflito desaba a gente”. Já não tinha energia pra bancar os outros lados necessários  da vida. Auto imagem zerada. Me sentia um lixo; no entanto, ainda assim, não controlava os impulsos sexuais e continuava com as atitudes de auto destruição! Era gozada pelos homens que me conheciam. Perdi amigas. Me sentia usada. Sem identidade saudável.  “Galinha amarela”, era o meu apelido. Acho que porque virei loira. Numa tarde, sozinha em meu quarto, infeliz, passeando pela internet, não sei porque, resolvi entrar num blog de psicologia pra entender que força estranha me compelia a ter atitudes que não conseguia controlar. Lendo sobre compulsão, fiquei intrigada! “Será que eu tinha aquilo”? Fiquei perplexa ao ler um caso lá relatado, idêntico ao meu quadro. Lá era classificado como ” transtorno mental”. Descrevia como um padrão persistente de falha no controle de impulsos sexuais repetitivos e intensos. Identificado como distúrbio compulsivo sexual. Identifiquei- me com todos os sintomas emocionais e psíquicos que lá estavam expostos. (Muito polêmico esse tema!). Compreendi que precisava de tratamento. Fui buscar ajuda terapêutica. Não quero mais me auto sabotar. Quero alinhavar pontos importantes de meu jeito de ser e me auto resgatar. “Preciso conhecer quais caminhos internos  me levam onde não quero ir”. Saber dos abismos ameaçadores e desviar-me deles. Comandar o meu equilíbrio psíquico sem me sentir um fantoche do prazer vazio. Lição nova: Orgasmo? SÓ SE FOR COM MUITO AMOR!

VIAGEM PROFUNDA! (APURAR OS SENTIDOS).

Sonolenta. Sensação corporal de leveza. Olhos pesados, lacrimejando de tanto bocejar. Credo, parece quebranto! Não paro de ficar bocejando, até dói o maxilar. Sentada no tapete da sala de estar dou uma espiada rápida no sofá aconchegante, encostado no canto da parede. Da varanda emana um cheiro delicioso de jasmim. O perfume se espalha por toda a sala.  A tentação de deitar naquele sofá é imensa. Meu corpo pede um sono gostoso! No entanto vim aqui na sala para meditar. Não quero dormir agora! (Não devia ter tomado as duas taças de vinho no almoço). Tenho pouca resistência ao álcool! Com preguiça, me levanto, vou até a cozinha tomar um copo de água. Aproveito e provo um bocadinho da geleia de morangos frescos que fiz  hoje pela manhã, antes do almoço. Provo. Hum, delícia! Pego uma colherada e lambuzo uma torradinha integral. Nossa! Sinto que meu corpo acordou com esse prazer! Os morangos docinhos reanimaram o desejo de voltar à experiência a que eu  tinha me proposto: meditação profunda! Há tempos estou querendo fazer essa viagem. Experimentar sensações novas, saudáveis e intensas, através dos sentidos. Fiz iniciação na yoga e, num determinado momento, travei. Tive que interromper.  Acho que me bloqueei. Isso ficou mal resolvido em mim. Neste domingo tranquilo, sozinha aqui em casa, me estimulei viver a experiência novamente. Nestes últimos dias, li um livro incrível sobre “efeitos da respiração profunda”.  Essa conexão com o interno é muito importante para o auto desenvolvimento e auto percepção. Tema atraente para mim! Ainda na cozinha olho para a mesa e olho as compotas. Tentação, essa geleia! Pego uma colher e saboreio mais uma porção dessa delícia. Volto à sala engolindo prazer. Novamente me sento no tapete, em posição de lótus e me preparo para meditar! (O livro que li explicava que através da respiração apuramos os sentidos e nos apropriamos mais de nós mesmos). A sexualidade pode atingir um estado de entrega plena!  Sensibilidade mais refinada. Tudo melhora! O vento na pele, o ar inalado produzem sensações aguçadas de um extremo prazer de estar vivo, mobilizando pontos sutis do sistema energético. Busco sair desses ensinamentos saudáveis que invadem a minha mente e tento voltar para o vazio interno. Inspiro a calma!  Respiro lenta e profundamente. Faço isso algumas vezes. Volto a respirar normal. Começo a contagem mental, de um a cinco. Quando algum pensamento interfere, retomo a contagem. Controlar os sentidos não é fácil! Gosto do morango que insiste ainda em minha boca, junto ao perfume das flores que vem da varanda, despertam sensações de um prazer singular. Intenso! Me ancoro nesse estado sensorial. Fecho os olhos. Aguço mais os sentidos. Ouço o vento cantando entre os galhos dos coqueiros do quintal. As folhas conversam entre elas. Som  misterioso. Fascinante! Coloco as mãos sobre o meu abdome, entrelaçando os dedos, suavemente. Sinto o calor da minha pele entre eles. Calor gostoso. Morno. Em  minha mente imagens abstratas, variadas, vindas do inconsciente. São figuras desconexas. Coloridas. Preto e branco. Misturadas. Me entrego aos sentidos! Quadro emocional motivador. De repente estou num lugar novo e estimulante. Foco meu olhar no meu âmago. Bem lá no fundo das entranhas. Ancoro nessa sensação por  instantes. Inspiro fundo! Expiro lentamente. Solto todo o ar num ritmo suave e prazeroso. Repito algumas vezes essa respiração. Pensamentos desconexos vêm a mente. Deixo que eles permaneçam o tempo necessário e que voem junto ao vento! Aceito sem censura expressões cerebrais emergentes. (Vou dando continuidade ao processo de limpeza mental, através desses exercícios). Olhos fechados, firmes, focados em meu interior. Depois de algum tempo surge uma sensação de vazio. Intenso. Tento permanecer nesse lugar, nem que seja por rápidos instantes. Algum medo? talvez! Pensamentos cruzados, insistem em interferir nesse processo de esvaziar a mente. “A cabeça da gente é danada, Traiçoeira”! Parece que conspira contra! Não desisto fácil. Sou persistente. Não quero me sabotar! Retomo o processo. Desta vez, conto de um a nove, rejeitando qualquer interferência da mente. Quando ela invade, recomeço a contagem. Depois de muitas tentativas, nem sei quantas, atinjo uma sensação de leveza e profundidade. Há uma luz aquecendo as minhas células. A energia circulante, traz imagens fortalecidas de mim mesma. “Sou gaivota no pico da montanha”. Estou nas nuvens. Transformador e transformante, esse instante. Minha alma está lépida. Lilás! Coração vermelho, pulsante! Pulsando na cadência das batidas. Tranquilo. Sereno. Dança harmoniosa. Integrada. Meu corpo reage num estado de intensa integração. Nirvana. “A CASA ESTÁ EM FESTA”!

O MUNDO COLORIDO DE RENAN! (DISLEXIA)

Renan, nove anos, é uma criança singular. Inteligência colorida e muito criativa. Desconhecida dos medíocres. Estão acostumados com o modelo tradicional que a sociedade aprova! Esse garoto desde pequenino já denotava um comportamento diferente do irmão mais velho. Sua mãe, mulher simples, afetuosa e preocupada, sempre esteve por perto. Coração gigante. Alma frágil. Cérebro ambivalente. Ora o protegia, ora o punia. Uma coisa é certa: ela o amava profundamente! Algumas vezes até se traia sendo rude e severa. Depois sentia muita culpa por atitudes agressivas e rejeitadoras que eventualmente tomava em relação a ele. “Renan era como um Anjo”. Doce e sensível! Vivia num mundo imaginário sustentando fantasias e sonhos. Natural que Joana, sua mãe, tivesse preocupação com o futuro do filho. Ela era sozinha. Separou-se do pai de Renan, ainda grávida. Um homem troglodita! Insensível e egoísta. Trabalhadora e determinada, Joana seguiu a vida. Conseguiu o cargo de gerência num grande supermercado, próximo à sua casa. Dona Lourdes, sua mãe, dava um bom suporte enquanto ela não voltava do trabalho. Preparava comidas caseiras saborosas, muitas verduras e grãos. Um tempero delicioso. Renan adorava a comida da avó, que o mimava demais. Era o seu xodó. Mulher da roça, que, em sua simplicidade, não entendia porque o  neto amado tinha tantas dificuldades na escola. Ela adorava o jeito amoroso dele. Para ela, Renan era o máximo principalmente quando mostrava pinturas  expressivas e coloridas! No entanto, acompanhava a rotina dele e sabia que algo estava errado em sua vida escolar. Não foram poucas as vezes que Joana foi chamada à escola em função das dificuldades de seu filho em ler e escrever. Em decorrência disso Renan sofria muitas gozações e humilhações. Quando chegava em casa amuado, Joana já sabia que algo ruim tinha acontecido na escola. Ela era uma mulher  esclarecida, porém não conseguia entender o que havia com seu filho. Porque tanta dificuldade  em aprender? Sempre o achou inteligente e criativo. Em sua cabeça, às vezes, surgiam perguntas sem respostas, mas logo pensava que era incompetência dos professores. Trocou Renan de escola algumas vezes, tentando resolver o problema que tanto a angustiava. A última transferência de Renan foi para uma escola com métodos e disciplina mais rígidos. Joana pensou que talvez fosse o que estava faltando pra Renan se enquadrar. Sentia um aperto no coração só em pensar que ele poderia sofrer. Nesses instantes buscava apoio em seu lado racional pra não fraquejar. Precisava se manter firme. “Não queria repetir o erro”. Em cada mudança de escola sempre houve uma expectativa imensa e muitas frustrações. Desta última vez não foi diferente. Logo no primeiro  mês, a coordenação convocou uma reunião com Joana e a comunicou que seu filho não tinha condições de frequentar uma escola normal. Indicou-lhe uma instituição para crianças especiais. Joana descabelou-se. Filho especial? Não!  “Eles não conheciam o seu Renan!”. Ele foi encaminhado para uma avaliação neuropsicológica para fechar um diagnóstico. Havia uma suspeita de dislexia. Quando Joana recebeu o diagnóstico positivo entendeu todo o sofrimento que seu filho sentia. A partir dai, desarmou-se. Buscou informações precisas sobre dislexia. Ampliou a consciência sobre os sintomas do quadro e formas de abordagens. Incrível, mas sentiu- se mais segura para buscar caminhos.  Entendeu que existem tipos e graus diferentes de dislexia e que tem origem genética. A de Renan era do tipo mista, num grau médio. Isto é, auditiva e visual dificultando a aprendizagem e a aquisição das habilidades na escrita, fala e orientação espacial, entre outros. Renan começou a frequentar uma psicóloga especializada e uma fonoaudióloga. Ao mesmo tempo foi matriculado numa instituição que tinha classes especializadas para crianças com dislexias. Com o passar do tempo a inteligência acima da média de Renan veio à tona, transbordando de alegria os corações que o amavam e principalmente a ele mesmo. Foi ficando seguro e integrado. Professores com a magia do conhecimento e da sensibilidade, fizeram desabrochar a criação e a vida que estavam reprimidas dentro de seu mundo. Seus olhos brilhantes expressam agora a alegria de viver. Sorriem como uma criança feliz. Hoje Renan já sabe que é capaz! VOVÓ LOURDES QUE O DIGA!

NÃO SEJA RIDÍCULO! ( IMATURIDADE).

Guilherme é figura que inspira os fracos. Sessenta e seis anos cronológicos e quinze mentais. Casado e pai de dois filhos adultos. Seu comportamento inadequado foi suportado pela esposa durante os trinta anos de convívio. No início do relacionamento Marina achava até graça quando o marido falava ou fazia coisas fora do contexto. Pensava que fazia parte da carência emocional  dele. Ele tinha tido uma infância difícil, pouco contato amoroso. Família numerosa e desestruturada. Ficava jogado nas ruas, cabulava aulas, sem direção e acompanhamento. Aprendeu a mentir pra se proteger de possíveis punições quando era indagado sobre alguma falha que cometera. Pais ausentes emocionalmente, porém, violentos. Sorte que na adolescência, um tio paterno se preocupou com o futuro  dele e resolveu investir em seus estudos. Guilherme foi obrigado a duras penas, entrar nos eixos e nos valores sociais. Teve que estudar muito. Foi muito cobrado pelo tio Jonas. Se deu bem profissionalmente. Formou-se em direito. Abriu um escritório na área trabalhista, ganhou um bom dinheiro. Só o seu caráter imaturo que não mudou, pelo contrário, ficou mais crápula ainda. Esse traço era mais evidente na intimidade. Sabia usar máscaras no social! Quando Marina o conheceu na faculdade, ficou encantada. Nem imaginava que aquele bonitão brincalhão tinha caráter fraco. Era um sedutor inveterado e disfarçado. Com o passar dos tempos ela conheceu o marido infiel que lhe causou muitas lágrimas. Mulher forte. Segurou a onda! Conseguiu conservar a família unida, engolindo raivas e dissabores ao ponto de desenvolver intensa gastrite. Apaixonada pelas suas crianças. Deu duro na formação do caráter deles. Não pensava em si. Doou-se inteira. Agora, depois de tanto tempo, filhos independentes e bem direcionados na vida, não quer mais auto sabotar-se. -“Guilherme potencializou seus defeitos. Transformou-se numa imagem piegas do sessentão com cabeça de adolescente. Sua linguagem, atitudes e interesses são fúteis e escrachados. Pornografia e cachaça são seus vícios. Aposentado, boa situação financeira, gasta tudo nos bares da vida. É um imbecil, sentindo-se um jovenzinho sedutor. Adora menininhas! Desprezível como ser humano”! – Essa foi a fala de Marina. “CIC”.  Ela o enxotou de sua vida. Marina veio buscar ajuda terapêutica. Juntar destroços internos e se perdoar. Está gostando do novo sabor de sua vida (jardins de girassóis). Descobriu-se corajosa, bonita e inteligente. Vai retomar os estudos. Desta vez quer fazer psicologia. Diz brincando: “Quero ajudar outras Marinas em tempo hábil”. Estamos trabalhando nessa questão. Será desejo genuíno ou transferência terapêutica? Sua viagem interna lhe dará a resposta. Está atenta. Vida nova. “MARINA NÃO PODE SE ENGANAR DESTA VEZ”!

 

 

QUADRO NA PAREDE! (DEVANEIO/DECISÃO).

Tarde fria e úmida. Gotas da chuva escorrendo pelos vidros das janelas. Parecem lágrimas de uma tarde triste! Luzes dos faróis  se refletem nessas lágrimas, despertando uma sensação muito estranha. Sinto que o coração ganhou um peso insustentável. Está disparado, buscando correr dessa angústia inesperada. Tento sair desse estado emocional, direcionando os pensamentos para o ambiente da sala, onde me encontro. Sentada no velho tapete bege; ansiosa, olho ao redor. Minhas pupilas buscam rapidamente algum ponto que me transporte a uma sensação mais leve. Muito ruim ficar assim! Volto os olhos a um quadro colorido, pendurado na parede, pertinho do piano. Ele sempre esteve ali. Só agora percebo os detalhes. Nunca o tinha visto assim! Fico fixada na expressão do palhaço, chorando de tanto rir.  Palhaço diferente! Tem um brilho estranho no olhar. Alegre e triste. Emoções misturadas que confundem a minha mente. Fico intrigada! O que será que ele esconde dentro de si? Que histórias? Expressão ambivalente que  mexe em sentimentos ambíguos, ancorados bem lá no fundo de meu peito. Chega um certo frio na barriga junto à saudade de morrer. Vida ingrata! Tudo que é bom escapa, vai embora. Tempos que não voltam. Lembranças intensas. Crianças brincando, correndo pela sala, atropelando os adultos, numa alegria genuína. Lembro que esse palhaço assustava a pequena Jana. Ela tinha medo. “Bicho papão”! Achava engraçado e cobria o quadro. Queria protege-la de fantasias ruins. Hoje eu a entendo melhor! Naquela época não cabiam falsidades. Tampouco inveja, competição ou qualquer sentimento tóxico. Tudo tão natural! Discussões eram como uma vitamina  que nutriam ainda mais os vínculos. Girassóis, roseiras e pardais! Sempre havia uma cor de fundo iluminando os contatos. Risos abertos. Palavras francas, algumas vezes duras, repassando a mensagem clara e bem dirigida. A confiança era tanta que nunca se duvidava do amor! A gente sabia que ele prevaleceria. Palhaço poderoso esse! Resgatando, agora, emoções  bloqueadas, escondidas pelo tempo. Tinha até me esquecido do tamanho da felicidade vivida. Porque será que as enterrei? É como se negasse ter vivido tempos tão incríveis. Talvez não valorizados. Pareço louca mesmo! As vezes duvido de mim. Sentada agora nesse tapete antigo, esse palhaço atrevido veio machucar meu coração. Reflito sobre as borboletas que enfeitam o seu chapéu. São azuis e amarelas. Fixo meus olhos nas borboletas azuis! Não sei porque. São quatro. Parece que querem voar e não conseguem. Fico com muita pena e, um tanto angustiada. Começo a chorar. Choro de raiva, misturado com compaixão. Decido não ficar nesse lugar! Quero mudar o meu astral. Desvio os olhos lentamente para as borboletas amarelas. Elas querem voar do chapéu do palhaço. Parecem mais espertas do que as azuis: não querem ficar presas naquele chapéu. Imediatamente me identifico com elas. Saio da ambivalência. SOU BORBOLETA AMARELA!

QUESTÃO DE PELE! ( ORGASMO).

Corações quentes. Atração. Dois corpos que se tocaram. Risos escancarados. Cócegas impertinentes. Aqui. Ali! Pontos sensíveis, os preferidos. Parecia até masoquismo. Prazer e dor. Dança insana, transformada em abraços voluptuosos. Beijos queimando as vísceras. Sensações transcendentais. Calor vindo das entranhas. Suores misturados, confundindo-se em suas nascentes. Respiração ofegante. Palavras desconexas. Sem ética. Amoral! Nos olhos o brilho louco do desejo, implorando caminhos a percorrer. Corrida louca, incontrolável para atingir o estado de nirvana. Fantasias malucas colorindo a mente. Entrega total. Já não dava mais pra voltar. LILÁS INTENSO CEGOU OS SENTIDOS!

FRAGMENTOS DE MIM! (VIDA OU MORTE).

Depois de um período nem sempre acolhedor que pode ser marcado por sensações prazerosas ou angustiantes, independente de nossa vontade consciente, nascemos! A jornada física no planeta terra começa ai. “Em psicanálise, as polaridades amor e ódio, vida e morte e outras, são forças que habitam o ser humano.. Estão presentes no cotidiano, tanto nos conflitos simples e banais, quanto nos mais mórbidos ou sublimes da humanidade”. Estes pares de opostos estão presentes, fundidos em tudo o que o ser humano faz, pensa e sente. Um impulso energético interno direciona as nossas ações, nosso comportamento, com o objetivo de equilíbrio interno, para gerar bem estar. Impulso de morte e pulsão de vida influenciam o nosso comportamento e sobrevivência humana. Seria perfeito que nessa chegada à terra houvesse festa, muita alegria e coração pulsante; no entanto, muitas vezes, isso não acontece.  “Conflito e angústia humana, mal administrados, podem causar desequilíbrio energético e danos a saúde”.  O destino com sua gama de acontecimentos  colabora muito pra que essa situação surja.  “Temos que ser guerreiros”! Com meu filho, sinto não ter evitado que recebesse sensações de meus desequilíbrios e angústias. Naquele momento não tinha a menor consciência do tamanho de minha insanidade emocional. Tampouco o quanto isso pudesse afetar a quem mais amava. “Egocentrismo impede de se olhar para fora”! Fui inconsciente e frágil. Andei só no caminho da dor, sem me dar conta que uma vida crescia dentro de mim. Precisava ser cuidada. Esperei tanto pra ter o meu Danilo. A descoberta da gravidez foi a sensação da mais inimaginável felicidade que já tinha sentido. Estrelas brilhavam em minha alma, diuturnamente. Enxoval escolhido como pedrinhas preciosas enfeitando o coração. Durou pouco. No sexto mês, já mostrando uma barriguinha redonda e linda, sentindo a vida pulsando com chutes e  pontapés vigorosos, a alegria de viver partiu. Tudo se transformou. Ouvi a notícia impiedosa na televisão:- O pai de meu filho tinha morrido. Acidente. Deus foi cruel comigo.  Morri também naquele instante! Danilo não! Continuava com seus movimentos em meu ventre dando sinais de vida. Meu coração não conseguia acompanhar o ritmo e os movimentos de Danilo. É como se ele quisesse me despertar para a vida.  Sentia muita culpa, tristeza e desejo de sumir. Carga pesada demais! Fragilizei. Foi então que meu filho resolveu antecipar a sua vinda. Nasceu prematuro. Num ambiente de intenso caos emocional. No dia em que ele chegou havia brumas nos céus encobrindo o brilho do sol amarelo do outono. Insistindo em nascer também! Parece que tinha havido um pacto entre meu filho e o sol! Os dois resolveram nascer juntos iluminando! Minha alma escurecida foi surpreendida pela luz de Danilo e pela luz do sol! Fiquei numa ambivalência total Senti uma desordem energética e afetiva em meu coração tão escuro.  E nessa  claridade abrupta, chorei. Chorei todas as dores intensas enterradas no âmago.. Chorei a culpa. Chorei a luz! Ressuscitei! Os olhos de Danilo eram idênticos  aos do meu amor perdido. Coração disparou. Naquele momento senti a  faísca da vida pulsar. De algum jeito estava  novamente junto aos amores de minha vida. Em meu processo terapêutico percebi que congelei sentimentos intensos sem conseguir processá-los. Fiquei cega aos matizes coloridos que continuaram  enfeitando o caminho. Compreendi que lidei com os meus limites possíveis de sobrevivência.  A perda sofrida  me aniquilou a razão. Só consegui pulsar na revolta e impotência, por dificuldade de encarar a realidade. Estava com a alma partida. O brilho dos olhos de Danilo e do rei sol, resgataram parte da minha energia perdida.  Foi mágico. Pulsação de vida preponderou.  “ESCOLHI VIVER”!

O GATO MORDEU A LINGUA! ( RECONCILIAÇÃO).

Tenho dois gatos. Manhosos e sensuais. Meio grudentos. Olhos azuis como o céu. Carentes. Os dois tem o peito coberto por pelos brancos. Um deles tem o nome de Frederico. O outro, Rafael. Cada um deles tem seu próprio jeito de ser. Frederico é simpático, afável, ao passo que Rafael é antipático, ensimesmado. Algumas vezes impertinente. Ranzinza. Não dá pra confiar em seu humor. Implicante como ele só! Não tolera Frederico. Harmonizar o ambiente com esses dois, não é fácil. Tem me dado muito trabalho. Converso muito com eles. Ainda bem que ambos são carinhosos. Sabem me conquistar diariamente. Pra mim é super importante ter conforto emocional dentro de casa. Confesso que tenho uma tendência instintiva em proteger Frederico. A sua energia tranquila combina com a minha.  Protejo mesmo Frederico! Não tolero o egocentrismo e falta de sensibilidade de Rafael. Algumas vezes já pensei até em abandoná-lo. Desisti. Não tem jeito. Eu o amo demais. Não sou de abandonar meus amores! Resolvi cuidar das diferenças e tentar conciliar. Não suportaria ficar longe dele. Seu toque é insubstituível, Mesmo sendo tão neurótico. Noutro dia, surpreendi meu lindo Frederico querendo brincar no tapete com Rafael. Milagres acontecem! Fiquei surpresa. Desta vez Rafael não o rejeitava. Milagrosamente, percebi que  estava envolvido com a brincadeira. Foi a primeira vez que vi os dois juntos e descontraídos. Fiquei feliz da vida com a cena. Senti que a relação estava melhorando. Alívio! Na verdade  incomodava muito perceber aquele nível de rejeição de Rafael por Frederico porque meu coração é profundamente apaixonado pelos dois. A cena deles brincando no tapete fez renascer em mim, a vontade da gente assistir filmes, comer pipoca, juntinhos na sala de estar. Trocar energia do amor. O bom da história é que desde aquele dia Rafael mudou! Agora busca sempre Frederico. Até o brilho de seu olhar azul ficou diferente quando estão juntos. Realmente Rafael mudou! Acredita que ele anda querendo casar comigo? Fiz aniversário semana passada. Sabe o que ganhei de niver dele? UMA LINDA NEVE. “MIAU”!

PÉS DESCALÇOS! ( PROTEÇÃO/DEFESA).

Estava num bosque. Era noite de verão. Lua cheia clareava as árvores e todo o ambiente ao redor. Mariposas voavam livremente, como dançarinas ao luar. Encantavam com seus movimentos suaves e ritmados. Comecei a caminhar empurrando os galhos que cruzavam o caminho. Suspense. Um certo medo vinha das entranhas. Fantasias misturadas com realidade tornando o momento fascinante e assustador. Isso não impedia de continuar a me embrenhar cada vez mais no desconhecido. Buscava mistérios e emoções! Fui andando. Passos vacilantes. Insistentes. Depois de algum tempo percebi que a claridade tinha diminuído muito. Frio na barriga repentino. Parei! Ouvi um ruído, como se fosse passos de algum animal grande. Paralisei! Pernas tremeram. Suor frio no rosto. Mãos geladas.  Respiração contida, pra não emitir som algum. Não podia chamar atenção. Fiquei assim, instintivamente, por alguns instantes. Coração queria saltar pela boca! Na mente, pensamentos de auto sobrevivência. Aqueles minutos pareciam intermináveis! Ansiedade intensa se apoderou de mim. “Ansiosa e aflita”! Num repente senti uma dor ardida no pé esquerdo. Aquela dor funcionou como uma “chamada para a realidade”. Consegui organizar minimamente os pensamentos.  Foi aí que percebi que estava descalça. Meu pé começou a sangrar. Doía muito! Percebi que algum espinho pontudo o tinha espetado. Como uma criança, comecei a chorar. Chorei muito.  Sangrava, sangue vermelho! Sentimentos misturados. Ambivalentes. Decidi interromper a caminhada. Comecei a retornar com passos lentos. Firmes! Protegendo o calcanhar esquerdo que doía muito se o colocasse no chão. Apoiava-me em alguns galhos quando a perna vacilava. Conforme fui retornando, a luz da lua foi retomando e clareando o bosque. Isso me energizou. Diminuiu o medo. Fui ficando mais tranquila, não fosse a dor no pé.  O coração se aliviando. Peito se abrindo. Finalmente reconheci onde me encontrava.  Incrível como fiquei mais segura. Não me sentia mais perdida. Uf! Caminhei mais um pouco e encontrei o  ponto de partida. Lá se encontravam os meus sapatos. “A luz da lua iluminava os meus sapatos vermelhos”! Estavam lá me esperando. Apressei os passos em direção a eles. Por alguns segundos até me esqueci do espinho no pé. Só fui lembrar quando apoiei o calcanhar no chão. Sentei-me numa pedra cinza, e, sob a luz do luar, arranquei o espinho dolorido. Doeu um bocado. Aliviou também.  Dei uns passos e fui lavar o machucado numa fonte ali pertinho. Assim que fui tentar colocar os sapatos, percebi um vulto se aproximando. Fiquei apreensiva. Estava tudo tão deserto! Meio alerta e muito atenta. Qual nada! Quando o vulto se aproximou, revelou-se a figura com que mais sonhei.  Parecia a história da Cinderela. Tinha a delicadeza própria dos príncipes de meus sonhos. Com um sorriso lindo em seu olhar, colocou os sapatos vermelhos em meus pés! DEU-SE O ENCANTO… (ACORDEI COM O TELEFONE TOCANDO).

SONHO/Trazido por Lina Maria. Moça jovem, inteligente e sensível, necessitando auto conhecimento e ampliação de consciência. Terapeuticamente será desenvolvido fortalecimento de sua relação com a realidade, integrando-a aos seus sonhos e desejos, respeitando os seus limites.